
O que aconteceu passou. Então por que o corpo ainda reage como se estivesse acontecendo?
Luciene Marinho
8/19/202626 min read



Algumas experiências terminam no calendário muito antes de terminarem na forma como reagimos ao mundo.
Anos podem ter se passado. A pessoa mudou de cidade, encerrou aquele relacionamento, afastou-se de quem a feriu, construiu outra vida e compreende racionalmente que a situação pertence ao passado. Talvez consiga falar sobre o que aconteceu com clareza, organizar os fatos e até reconhecer que hoje possui recursos que não tinha naquela época.
Ainda assim, determinadas situações parecem alcançar uma parte dela antes que o pensamento consiga explicar o que está acontecendo.
Um tom de voz muda e o corpo se contrai. Uma mensagem demora a ser respondida e surge uma inquietação difícil de controlar. Alguém demonstra irritação e imediatamente aparece a necessidade de apaziguar. Uma crítica pequena provoca vergonha intensa. Uma discussão desperta vontade de sair dali. Uma aproximação afetiva que deveria ser agradável produz desconforto. O coração acelera, a respiração muda, os músculos se tensionam ou, em algumas situações, acontece justamente o contrário: a pessoa se sente distante, entorpecida, imóvel, como se temporariamente tivesse perdido o acesso às próprias palavras.
Depois que a situação termina, ela olha para o que aconteceu e pensa:
“Eu sabia que não estava em perigo. Então por que reagi daquele jeito?”
Essa aparente contradição entre aquilo que sabemos e aquilo que sentimos é uma das questões mais importantes para compreender os efeitos que experiências adversas podem exercer ao longo da vida.
Porque uma experiência pode ter terminado objetivamente e, ainda assim, ter participado da construção de aprendizagens sobre segurança, ameaça, proximidade, rejeição, controle, confiança e vulnerabilidade.
Isso não significa que exista literalmente uma experiência “presa” em determinada parte do corpo. Expressões como “o corpo guarda o trauma” ou “o trauma fica armazenado nos músculos” tornaram-se populares porque traduzem de maneira intuitiva algo que muitas pessoas reconhecem na própria experiência. Cientificamente, entretanto, o fenômeno é mais complexo.
O que podemos dizer é que experiências emocionalmente significativas envolvem memória, aprendizagem, percepção, respostas fisiológicas e interpretação do contexto. Quando uma experiência é intensamente ameaçadora ou perturbadora, determinados elementos presentes naquele momento podem adquirir um significado relacionado ao perigo. Posteriormente, pistas semelhantes podem voltar a mobilizar respostas, mesmo quando o contexto atual é diferente.
A literatura contemporânea sobre aprendizagem de ameaça, interocepção e transtorno de estresse pós-traumático mostra justamente uma interação entre circuitos envolvidos em memória e aprendizagem e sistemas corporais envolvidos na resposta à ameaça. Isso ajuda a compreender por que determinadas sensações internas ou pistas externas podem continuar participando de respostas muito depois de um acontecimento ter terminado.
Mas existe uma ressalva essencial: nem toda experiência difícil se transforma em trauma, nem toda reação intensa significa TEPT e nem todo sintoma corporal possui origem psicológica.
O objetivo não é transformar cada reação humana em evidência de uma ferida escondida.
É compreender por que, em algumas histórias, o presente pode mobilizar respostas que foram construídas em outro contexto.
Uma coisa é lembrar do que aconteceu. Outra é perceber como aquilo foi aprendido
Quando pensamos em memória, geralmente imaginamos uma espécie de arquivo autobiográfico.
Lembramos onde estávamos, quem estava presente, o que aconteceu primeiro, o que veio depois e como aquela história terminou. Essa é uma dimensão importante da memória, mas está longe de representar tudo aquilo que aprendemos a partir das experiências.
Imagine uma criança que cresce em um ambiente no qual nunca sabe como um adulto chegará em casa.
Em alguns dias, existe tranquilidade. Em outros, uma mudança quase imperceptível no tom de voz antecede uma discussão. Em outros, o silêncio significa que alguma coisa ruim está prestes a acontecer.
Com o tempo, essa criança pode se tornar extremamente competente em perceber alterações sutis no ambiente.
Ela observa expressões faciais, mudanças de humor, movimentos, silêncios, volume da voz. Talvez aprenda a modificar o próprio comportamento rapidamente para evitar conflitos.
Naquele contexto, isso pode ser profundamente adaptativo.
Perceber o ambiente antes que algo aconteça pode representar proteção.
Anos depois, entretanto, essa mesma pessoa pode continuar monitorando as emoções dos outros mesmo quando já não precisa fazê-lo.
Um parceiro chega mais calado e ela imediatamente pergunta se fez alguma coisa errada.
Um chefe escreve “precisamos conversar” e, antes de conhecer o assunto, ela passa horas antecipando uma demissão.
Alguém demonstra irritação e ela abandona aquilo que estava dizendo para tentar restaurar rapidamente a harmonia.
O comportamento atual pode parecer excessivo quando observado isoladamente.
Mas talvez ele tenha uma história.
Isso não significa que o cérebro esteja simplesmente confundindo passado e presente. A formulação é mais complexa. Experiências anteriores participam da construção de expectativas e associações que ajudam o organismo a prever o que pode acontecer a seguir.
Em determinadas circunstâncias, pistas atuais podem se parecer suficientemente com elementos de situações anteriores para mobilizar respostas aprendidas.
O presente não é o passado.
Mas pode conter sinais que o organismo aprendeu, em outro momento, a levar muito a sério.
O organismo humano é construído para aprender com o perigo
Aprender rapidamente aquilo que representa ameaça possui enorme valor adaptativo.
Se precisássemos analisar longamente cada situação antes de reagir, nossa sobrevivência teria sido bastante prejudicada ao longo da evolução.
O organismo utiliza experiências anteriores para orientar previsões e respostas futuras.
Na pesquisa experimental, parte desse fenômeno é estudada através da aprendizagem de medo ou ameaça. Um estímulo que inicialmente era neutro pode adquirir significado depois de associado a uma experiência aversiva. Posteriormente, estímulos semelhantes também podem mobilizar respostas.
Existe ainda um processo chamado generalização.
Ele é importante porque o mundo raramente repete exatamente a mesma situação. Para nos proteger, precisamos reconhecer semelhanças.
O problema aparece quando essa generalização se torna ampla demais.
Uma pessoa que foi atacada por determinado animal não precisa encontrar exatamente o mesmo animal para sentir medo novamente. Características semelhantes podem ser suficientes para produzir uma resposta.
Nas experiências humanas complexas, as associações podem envolver elementos muito mais sutis: expressões faciais, formas de aproximação, determinados lugares, cheiros, sons, sensação de estar sem saída, características relacionais ou estados corporais.
Pesquisas sobre TEPT mostram alterações relacionadas à aprendizagem e à extinção de respostas de ameaça, embora seja importante não extrapolar automaticamente achados de TEPT para qualquer pessoa que tenha vivido uma experiência adversa.
Ainda assim, esses modelos oferecem uma janela importante para compreender como algo que já terminou pode continuar influenciando respostas posteriores.
O que acontece quando o perigo termina?
Essa pergunta é tão importante quanto compreender como aprendemos o perigo.
Em condições adaptativas, o organismo também aprende segurança.
Se algo que anteriormente previa ameaça começa a ocorrer repetidamente sem que o desfecho perigoso aconteça, novas aprendizagens podem ser construídas.
Esse processo é frequentemente estudado através da extinção.
Mas extinção não significa necessariamente apagar a aprendizagem anterior.
Em termos simplificados, uma nova aprendizagem é construída: aquele estímulo pode existir em determinado contexto sem que a ameaça aconteça.
Isso explica uma característica importante das respostas humanas.
Uma pessoa pode ter construído uma nova vida, desenvolvido relações seguras e aprendido novas maneiras de funcionar e, ainda assim, perceber que uma resposta antiga reaparece em determinadas condições, especialmente durante períodos de estresse, vulnerabilidade ou diante de pistas muito semelhantes às originais.
A recuperação, portanto, não precisa ser compreendida como apagar o passado.
Pode significar construir novas possibilidades suficientemente consistentes para que o passado deixe de determinar automaticamente a resposta presente.
O corpo participa da experiência desde o início
Uma experiência ameaçadora não acontece apenas como pensamento.
Enquanto alguma coisa acontece no ambiente, o organismo também está mudando.
A frequência cardíaca pode aumentar; a respiração pode se modificar; os músculos podem se preparar para ação; a atenção pode se estreitar; podem surgir alterações gastrointestinais, tremores, sudorese, calor, frio ou sensações de entorpecimento.
Esses sinais internos fazem parte da experiência.
É aqui que entra um conceito importante para compreender a relação entre corpo e emoção: interocepção.
Interocepção refere-se ao processo através do qual percebemos, interpretamos e integramos sinais provenientes do interior do organismo.
Você não precisa olhar para um aparelho para perceber que seu coração está acelerado. Não precisa medir a musculatura para sentir tensão. O organismo produz sinais e o cérebro continuamente recebe, interpreta e contextualiza parte dessas informações.
Uma revisão publicada em 2023 discutiu justamente como sinais interoceptivos podem participar da aprendizagem de medo e dos diferentes sintomas encontrados no TEPT. Os autores propõem que sensações corporais presentes durante uma experiência traumática podem integrar o contexto de aprendizagem e, posteriormente, participar da ativação de respostas associadas à ameaça.
Isso nos ajuda a compreender uma frase muito comum:
“Meu corpo reagiu antes de eu entender o que estava acontecendo.”
Essa percepção não é necessariamente imaginária.
A avaliação consciente e verbal não é a única forma pela qual o organismo responde ao ambiente.
Às vezes, o gatilho pode ser uma sensação
É relativamente fácil compreender que um som ou uma imagem possa lembrar alguma coisa.
Mais difícil é perceber que uma sensação interna também pode adquirir significado.
Imagine alguém que experimentou intensa aceleração cardíaca durante uma situação extremamente ameaçadora.
Anos depois, o coração acelera durante uma situação completamente diferente. Talvez tenha subido rapidamente uma escada, tomado café em excesso ou esteja simplesmente ansioso antes de uma apresentação.
A sensação é real e possui uma explicação atual.
Mas aquela aceleração também pode se tornar objeto de atenção.
“Por que meu coração está assim?”
A atenção aumenta. A sensação é interpretada como perigosa. A preocupação aumenta a ativação fisiológica e o coração acelera ainda mais.
Agora, o próprio corpo parece confirmar que alguma coisa está errada.
Não é difícil perceber como uma sequência dessa natureza pode se retroalimentar.
Pesquisas sobre interocepção têm mostrado que a relação entre percepção corporal e TEPT é complexa e não pode ser reduzida à ideia de que pessoas traumatizadas simplesmente “sentem demais o corpo”. Uma revisão de escopo publicada em 2024 encontrou resultados heterogêneos e destacou a importância não apenas da percepção dos sinais internos, mas da maneira como eles são avaliados e interpretados.
Essa distinção é muito importante.
Perceber o corpo não é necessariamente o problema.
O significado atribuído ao que está sendo percebido também importa.
Por que algumas pessoas ficam hipervigilantes?
Hipervigilância é outra palavra que se tornou comum nas redes sociais e, por isso, precisa ser utilizada com precisão.
Em quadros como o TEPT, hiperativação e aumento da vigilância para sinais de ameaça podem fazer parte da apresentação clínica. Mas estar atento, preocupado ou ansioso em determinados momentos não significa automaticamente estar em hipervigilância clínica.
Ainda assim, existe um princípio relevante.
Quando alguém vive durante muito tempo em um ambiente imprevisível, prestar atenção pode ser uma estratégia de proteção.
A pessoa aprende a observar.
Quem está chegando? Qual é o humor dele? O que significa aquele silêncio? É melhor falar agora ou depois? Existe alguma coisa errada? Preciso fazer alguma coisa para impedir que a situação piore?
Se essa estratégia foi repetida durante anos, não é surpreendente que ela possa continuar aparecendo posteriormente.
O organismo não recebe um comunicado formal dizendo:
“Agora você está em outro relacionamento. Pode parar de monitorar.”
Novas experiências precisam fornecer informações diferentes.
E isso pode levar tempo.
O mesmo vale para quem aprendeu a agradar para permanecer seguro
Nem todas as respostas construídas diante de experiências adversas parecem medo.
Algumas parecem gentileza excessiva.
A pessoa sente enorme dificuldade para dizer não, percebe rapidamente aquilo de que os outros precisam, evita discordar, desculpa-se mesmo quando não fez nada errado e sente ansiedade diante da possibilidade de desapontar alguém.
Vista apenas no presente, ela pode parecer alguém que simplesmente “precisa aprender a colocar limites”.
Mas, em determinadas histórias, agradar foi uma forma de preservar vínculo, reduzir conflito ou evitar consequências.
O problema não está no fato de essa estratégia ter existido.
Talvez ela tenha sido extremamente inteligente naquele momento.
A dificuldade aparece quando uma solução construída para determinado ambiente continua sendo utilizada indiscriminadamente em contextos nos quais já não é necessária.
A pessoa adulta pode possuir recursos, autonomia e capacidade de escolha que não tinha quando aquele padrão começou.
Mas a resposta automática ainda pode carregar uma lógica anterior.
Algumas pessoas aprenderam exatamente o contrário: não precisar de ninguém
Existe também a pessoa que não pede.
Não depende.
Não demonstra necessidade.
Não permite que percebam quando está vulnerável.
Frequentemente, essa postura é admirada como independência.
E pode realmente haver autonomia saudável.
Mas, em alguns casos, existe uma história diferente por trás dela.
Talvez pedir ajuda tenha produzido frustração repetidamente. Talvez vulnerabilidade tenha sido utilizada contra a pessoa. Talvez depender de alguém tenha significado perder controle ou ficar exposta a abandono.
Então ela aprende:
“É mais seguro resolver sozinha.”
A estratégia funciona.
Até que a vida exige algo que ninguém deveria precisar sustentar sozinho.
Nesse momento, aquilo que um dia foi proteção pode se transformar em isolamento.
Novamente, compreender a origem não significa patologizar a personalidade.
Significa perceber que muitos comportamentos que hoje chamamos de “padrões” começaram como respostas possíveis diante das condições disponíveis naquele momento.
E quando a resposta é não sentir?
Quando falamos sobre respostas a experiências adversas, existe uma tendência a imaginar apenas ativação: coração acelerado, ansiedade, tensão, irritabilidade, medo.
Mas nem todas as respostas seguem essa direção.
Algumas pessoas descrevem entorpecimento, desconexão, sensação de irrealidade ou dificuldade de acessar emoções em determinados momentos.
Outras relatam que, durante uma situação muito intensa, simplesmente “funcionaram”.
Resolveram o problema, cuidaram de outras pessoas, tomaram decisões e só muito depois perceberam o impacto emocional daquilo que aconteceu.
Em quadros relacionados ao trauma, fenômenos dissociativos podem ocorrer, embora dissociação seja um conceito amplo e não deva ser inferida a partir de qualquer sensação de distração ou desligamento.
A própria literatura sobre interocepção sugere que alterações na relação com sinais corporais podem assumir diferentes formas, incluindo tanto amplificação quanto redução da percepção ou do acesso a determinados estados internos.
Isso é importante porque desmonta outra simplificação.
Não existe uma única maneira pela qual “o corpo reage ao trauma”.
As respostas são heterogêneas.
“Eu entendo tudo isso. Mas continuo reagindo.”
Talvez esta seja uma das experiências mais frustrantes para quem já fez muito trabalho de autoconhecimento.
A pessoa consegue explicar sua história.
Sabe de onde determinados padrões podem ter vindo.
Reconhece os gatilhos.
Percebe quando está repetindo uma resposta antiga.
E ainda assim sente.
Isso pode produzir uma segunda camada de sofrimento:
“Se eu já entendi, por que ainda não consegui mudar?”
Porque compreensão é importante, mas não necessariamente modifica imediatamente todos os processos envolvidos em uma resposta.
Saber que um elevador é seguro não elimina automaticamente uma fobia.
Saber que uma apresentação não coloca sua vida em risco não impede necessariamente a ansiedade.
Saber que o parceiro atual não é a pessoa que o feriu anteriormente não significa que toda expectativa relacional construída ao longo da vida desaparecerá no instante em que você reconhecê-la.
O conhecimento explícito participa da mudança.
Mas novas experiências também participam.
O passado pode aparecer justamente onde existe algo importante no presente
Algumas respostas se tornam mais visíveis quando a pessoa começa a construir aquilo que anteriormente não teve.
Uma relação segura pode, paradoxalmente, ativar medo de perder.
Uma oportunidade profissional importante pode ativar medo de fracassar.
Uma relação de intimidade pode tornar mais evidente a dificuldade de confiar.
Receber cuidado pode produzir desconforto em quem passou a vida cuidando dos outros.
Descansar pode gerar culpa em quem aprendeu que valor pessoal depende de produtividade.
Isso parece contraditório apenas se imaginarmos que segurança sempre será imediatamente sentida como segurança.
Nem sempre.
Às vezes, o novo também é desconhecido.
E aquilo que é desconhecido pode exigir aprendizagem.
Experiências precoces podem ter uma particularidade
Quando determinadas experiências acontecem muito cedo, existe uma questão adicional.
Nem tudo aquilo que influencia o desenvolvimento foi necessariamente organizado em uma narrativa autobiográfica clara.
Nos primeiros anos de vida, sistemas de memória e linguagem ainda estão em desenvolvimento. Além disso, muitas experiências importantes não são eventos únicos e dramáticos. Podem consistir em padrões relacionais repetidos: imprevisibilidade, indisponibilidade emocional, críticas constantes, inversão de papéis, conflitos frequentes ou ausência de respostas consistentes às necessidades da criança.
Isso não significa que toda dificuldade adulta seja consequência da infância.
Também não significa que seja possível reconstruir com certeza acontecimentos não lembrados a partir de sintomas atuais.
Esse cuidado é fundamental.
Sintomas não são máquinas do tempo.
Não podemos olhar para uma reação corporal e concluir que ela “prova” determinado acontecimento precoce.
Mas experiências relacionais repetidas participam do desenvolvimento de expectativas sobre si, sobre os outros e sobre a disponibilidade do ambiente.
É nesse sentido que compreender a história pode ser clinicamente relevante.
Nem tudo precisa ter acontecido na infância
Existe outro exagero comum no discurso contemporâneo sobre trauma: procurar a origem de tudo nos primeiros anos de vida.
Experiências significativas podem acontecer em qualquer fase.
Relacionamentos abusivos na vida adulta, violência, acidentes, perdas, situações médicas, assédio, humilhação, experiências profissionais extremamente adversas e muitos outros acontecimentos podem modificar expectativas e respostas posteriores.
Além disso, a maneira como uma pessoa responde a uma experiência depende de inúmeros fatores: história anterior, intensidade e duração do acontecimento, suporte disponível, idade, condições posteriores, recursos psicológicos, contexto social e significado atribuído à experiência.
Não existe uma fórmula simples do tipo:
evento difícil = trauma permanente.
A capacidade humana de recuperação é enorme.
Muitas pessoas atravessam experiências extremamente difíceis sem desenvolver psicopatologia persistente.
Outras apresentam sintomas temporários e se recuperam.
Algumas desenvolvem dificuldades que precisam de tratamento.
Essa variabilidade faz parte da ciência do trauma e precisa aparecer na comunicação responsável sobre o tema.
Então o corpo “guarda” ou não guarda?
Como metáfora clínica, podemos compreender por que essa expressão ganhou tanta força.
Ela dá linguagem a uma experiência real: às vezes, a pessoa não está pensando conscientemente em determinada história, mas percebe uma resposta corporal intensa.
O problema aparece quando a metáfora é transformada em mecanismo biológico literal.
Não temos evidência de que uma lembrança traumática seja simplesmente depositada em um músculo, em uma fáscia ou em determinada região corporal aguardando ser “liberada”.
O que existe é uma interação muito mais sofisticada entre cérebro, corpo, memória, aprendizagem, sistema autonômico, contexto, percepção e interpretação.
Uma revisão sobre codificação de memórias de ameaça destaca justamente que compreender trauma exige considerar não apenas circuitos cerebrais classicamente relacionados ao medo, mas também a interação desses circuitos com sistemas fisiológicos corporais envolvidos na resposta à ameaça.
Portanto, talvez uma formulação mais precisa seja:
o corpo participa da forma como experiências são vividas, aprendidas e posteriormente reconhecidas.
Isso é diferente de dizer que ele funciona como um depósito de experiências não processadas.
O risco de transformar qualquer sensação em trauma
Quando uma explicação se torna popular, ela pode começar a ser utilizada para tudo.
Tensão no pescoço? Trauma.
Dor lombar? Trauma.
Cansaço? Sistema nervoso.
Problema gastrointestinal? Emoção reprimida.
Dificuldade de relacionamento? Ferida da infância.
Esse tipo de raciocínio parece oferecer respostas, mas pode produzir dois problemas importantes.
O primeiro é científico: correlação não significa causalidade, e sintomas humanos possuem múltiplos determinantes.
O segundo é clínico: atribuir prematuramente um sintoma físico a uma causa emocional pode atrasar uma investigação médica necessária.
Corpo e mente não são sistemas independentes, mas reconhecer essa integração não autoriza reduzir toda manifestação corporal à história psicológica.
Uma abordagem verdadeiramente integrativa precisa conseguir sustentar complexidade.
O contexto atual importa tanto quanto a história
Existe ainda outro risco quando olhamos apenas para o passado: deixar de perceber que algumas respostas atuais são perfeitamente coerentes com o presente.
Nem toda ansiedade é uma memória antiga.
Às vezes, a relação atual é insegura.
Às vezes, o ambiente de trabalho é abusivo.
Às vezes, existe sobrecarga real.
Às vezes, a pessoa está sendo desrespeitada.
Às vezes, o corpo está sinalizando uma condição médica.
Às vezes, existe perigo.
Uma boa compreensão clínica precisa fazer uma pergunta essencial:
essa resposta pertence principalmente ao passado, ao presente ou à interação entre os dois?
Isso muda tudo.
Porque o objetivo de uma psicoterapia não pode ser ensinar alguém a sentir-se seguro em um ambiente que continua sendo inseguro.
Onde o EMDR entra nessa compreensão?
A Terapia EMDR foi desenvolvida por Francine Shapiro e possui como referência conceitual o modelo de Processamento Adaptativo da Informação, conhecido pela sigla AIP.
Dentro desse modelo, experiências perturbadoras podem permanecer insuficientemente processadas e continuar associadas a elementos perceptivos, emocionais, cognitivos e somáticos que podem ser reativados posteriormente.
O EMDR trabalha a partir de uma conceitualização que considera experiências relevantes do passado, situações presentes que funcionam como gatilhos e possibilidades de respostas mais adaptativas no futuro.
Há uma distinção importante aqui.
O modelo AIP é uma estrutura teórica para compreender a psicopatologia e orientar a intervenção em EMDR. Não devemos apresentá-lo como se todas as suas proposições fossem uma descrição neurobiológica definitivamente demonstrada.
Essa cautela não diminui o EMDR.
Ao contrário, diferencia um modelo clínico de uma explicação neurocientífica e evita misturar níveis diferentes de evidência.
O modelo propõe que experiências inadequadamente processadas podem continuar influenciando percepções, emoções, crenças e respostas atuais e que o processamento terapêutico pode favorecer integração mais adaptativa.
Esse raciocínio apresenta pontos de diálogo com conhecimentos contemporâneos sobre memória, aprendizagem, atualização de informações e respostas de ameaça, mas esses campos não são equivalentes e um não deve ser utilizado como “prova” integral do outro.
Por que o EMDR não é simplesmente “mexer os olhos”?
Outra simplificação frequente reduz o EMDR à estimulação bilateral.
O tratamento é mais amplo.
O EMDR possui um protocolo estruturado e envolve avaliação da história, preparação, identificação de alvos, processamento e integração, entre outras etapas. A conceitualização de caso orientada pelo AIP procura compreender relações entre experiências anteriores, dificuldades atuais e respostas futuras desejadas.
Isso é especialmente relevante quando falamos de experiências complexas.
Nem sempre o trabalho começa diretamente pela lembrança mais dolorosa.
Estabilidade, recursos, capacidade de permanecer presente e condições atuais de segurança precisam ser considerados.
Processar não significa forçar alguém a reviver aquilo que aconteceu.
A abordagem somática acrescenta outra dimensão
Quando incorporamos uma perspectiva somática ao trabalho psicológico, o corpo deixa de ser tratado como mero espectador da experiência emocional.
Sensações, postura, respiração, impulsos de aproximação ou afastamento e percepção interna podem fornecer informações sobre aquilo que está acontecendo naquele momento.
Mas uma abordagem somática responsável também não precisa transformar cada sensação em uma interpretação.
Às vezes, perceber uma tensão significa apenas perceber uma tensão.
O valor clínico pode estar justamente em desenvolver capacidade de observar aquilo que acontece internamente sem precisar imediatamente fugir, controlar, explicar ou transformar a sensação em ameaça.
Isso se aproxima de discussões contemporâneas sobre interocepção, nas quais não importa apenas perceber sinais internos, mas também a maneira como a pessoa dirige atenção a eles e os interpreta.
Essa diferença é fundamental.
O objetivo não é ensinar alguém a monitorar ainda mais o próprio corpo.
Para uma pessoa já hipervigilante, isso poderia inclusive aumentar a preocupação.
O objetivo pode ser construir uma relação mais discriminativa com os sinais internos: perceber, contextualizar e reconhecer quando uma sensação precisa de atenção, quando pode ser tolerada e quando pertence simplesmente às oscilações normais de um organismo vivo.
Segurança também precisa ser aprendida
Se existe uma ideia central que merece ser preservada nessa discussão, talvez seja esta.
O organismo humano não aprende apenas perigo.
Ele também aprende segurança.
Uma pessoa pode descobrir que consegue discordar sem ser abandonada.
Pode aprender que estabelecer um limite não necessariamente destrói uma relação.
Pode perceber que pedir ajuda não significa tornar-se fraca.
Pode experimentar intimidade sem perder autonomia.
Pode cometer um erro sem ser humilhada.
Pode sentir ansiedade e perceber que ela diminui.
Pode descansar sem que alguma catástrofe aconteça.
Pode receber cuidado sem precisar imediatamente devolvê-lo.
Cada uma dessas experiências oferece informações novas.
A pesquisa sobre extinção de medo mostra justamente que a redução de respostas aprendidas envolve nova aprendizagem sobre segurança e contexto, e não simplesmente a destruição de toda associação anterior.
Clinicamente, isso possui uma implicação profunda.
Mudança não é apenas compreender por que você reage.
Também é poder experimentar repetidamente que outras respostas são possíveis.
O corpo que aprendeu proteção também pode aprender diferenciação
Às vezes, falamos sobre o organismo como se ele fosse um sistema preso ao passado.
Não é.
O mesmo sistema que aprende a antecipar perigo também possui capacidade de atualizar informações.
Neuroplasticidade, aprendizagem e memória existem justamente porque organismos precisam modificar respostas a partir da experiência.
Isso não significa que basta “pensar positivo”, decidir sentir segurança ou repetir afirmações.
Aprendizagem emocional não funciona por decreto.
Mas significa que respostas não são necessariamente sentenças permanentes.
Novas experiências podem ampliar repertórios.
Novos vínculos podem modificar expectativas.
Processamento terapêutico pode alterar a relação com determinadas memórias.
Reconhecer sinais internos sem interpretá-los automaticamente como ameaça pode construir outras formas de relação com o corpo.
O passado influencia.
Ele não precisa possuir poder absoluto sobre o presente.
Quando a reação atual parece muito maior do que a situação
Uma pergunta clinicamente útil pode surgir justamente nesses momentos.
“Essa reação faz sentido apenas diante do que aconteceu agora?”
Não para invalidar o sentimento.
Mas para investigar.
Talvez a resposta seja sim.
Talvez a situação atual realmente seja grave.
Talvez seja parcialmente.
Talvez exista algo na experiência atual que tocou uma aprendizagem anterior.
É nessa diferença que começa uma compreensão mais refinada.
Uma crítica pequena pode mobilizar uma história inteira de humilhação.
Um afastamento temporário pode tocar experiências repetidas de abandono.
Uma mudança de planos pode produzir enorme ansiedade em alguém que viveu durante anos em ambientes imprevisíveis.
Receber um “não” pode ser experimentado como rejeição completa quando, durante muito tempo, pertencimento dependeu de corresponder às expectativas dos outros.
O acontecimento presente é real.
Mas sua intensidade emocional pode ser construída pela interação entre aquilo que está acontecendo agora e aquilo que situações semelhantes significaram anteriormente.
Isso não significa viver procurando gatilhos
Outro efeito indesejável da popularização desses conceitos é transformar a vida em uma busca permanente por gatilhos.
“Isso me ativou.”
“Aquilo ativou meu sistema nervoso.”
“Essa pessoa disparou meu trauma.”
A linguagem pode ajudar a reconhecer padrões, mas também pode, em alguns casos, reforçar uma identidade organizada em torno da vulnerabilidade.
Nem todo desconforto precisa ser evitado.
Nem toda ativação significa perigo.
Nem toda emoção intensa significa que alguma coisa está errada.
Uma vida emocional saudável não é uma vida sem ativação.
É uma vida na qual existe maior capacidade de perceber o que acontece, compreender o contexto, recuperar-se e escolher respostas com mais flexibilidade.
O objetivo não é construir um mundo sem gatilhos.
É ampliar a capacidade de distinguir passado e presente, perigo e desconforto, proteção necessária e proteção automática.
Processar não é apagar o que aconteceu
Talvez essa seja uma das ideias mais importantes quando falamos de recuperação.
Uma experiência adequadamente processada não precisa desaparecer.
A pessoa continua sabendo o que viveu.
Pode continuar reconhecendo que foi injusto, doloroso ou profundamente marcante.
Pode até continuar sentindo tristeza quando pensa naquilo.
A diferença é que a memória deixa de possuir a mesma capacidade de organizar automaticamente o presente.
A pessoa consegue lembrar sem sentir que está novamente dentro da experiência.
Consegue reconhecer sem precisar fugir.
Consegue encontrar semelhanças sem concluir automaticamente que o desfecho será o mesmo.
Consegue olhar para aquilo como parte da própria história, e não como uma situação que continua acontecendo.
Dentro da perspectiva do AIP, essa passagem da experiência perturbadora para uma integração mais adaptativa é central ao modelo de processamento proposto para o EMDR.
Talvez a pergunta não seja “por que meu corpo faz isso comigo?”
Quando uma reação corporal é intensa, é comum senti-la como inimiga.
“Meu corpo me sabota.”
“Eu queria conseguir controlar.”
“Não deveria estar sentindo isso.”
Mas, dependendo da história, talvez seja possível construir outra pergunta:
“O que essa resposta aprendeu a tentar fazer por mim?”
Talvez tenha aprendido a antecipar.
Talvez tenha aprendido a afastar.
Talvez tenha aprendido a ficar imóvel.
Talvez tenha aprendido a agradar.
Talvez tenha aprendido a controlar.
Talvez tenha aprendido a não depender.
Isso não significa romantizar sofrimento nem manter estratégias que hoje produzem prejuízo.
Significa reconhecer que muitas respostas começaram como tentativas de adaptação.
Quando compreendemos essa lógica, a mudança deixa de ser uma guerra contra o próprio organismo.
Passa a ser um processo de atualização.
O que um dia protegeu você pode não ser mais necessário da mesma maneira
Essa talvez seja a passagem mais delicada.
A pessoa não precisa odiar a estratégia antiga para construir uma nova.
Pode reconhecer:
“Fazer isso foi importante para mim.”
E, ao mesmo tempo:
“Hoje eu tenho outras possibilidades.”
É possível agradecer simbolicamente à vigilância que percebeu perigos e aprender a descansar.
Reconhecer a autossuficiência que permitiu sobreviver e começar a experimentar confiança.
Compreender a necessidade de agradar e desenvolver capacidade de sustentar um limite.
Reconhecer que evitar proximidade protegeu contra sofrimento e, gradualmente, descobrir relações nas quais aproximação não significa perda de si.
Mudança não exige negar a inteligência adaptativa das respostas anteriores.
Exige perceber que uma resposta construída em determinado contexto não precisa governar todos os contextos seguintes.
O passado pode continuar influenciando sem precisar continuar comandando
Nenhuma pessoa pode apagar aquilo que viveu.
E talvez nem fosse desejável.
Nossa história participa de quem somos, das escolhas que fazemos, dos significados que construímos e da maneira como compreendemos o mundo.
O problema não é possuir passado.
O problema aparece quando determinadas experiências continuam restringindo excessivamente as possibilidades do presente.
Quando a pessoa evita relações que deseja ter.
Quando não consegue descansar mesmo estando segura.
Quando permanece antecipando abandono em relações estáveis.
Quando pequenas críticas são experimentadas como ameaças profundas ao próprio valor.
Quando a necessidade de controle impede espontaneidade.
Quando o corpo reage repetidamente como se ainda fosse necessário sobreviver a uma situação que já terminou.
É nesse ponto que compreender a relação entre memória, aprendizagem, corpo, contexto e história pode ser profundamente transformador.
Não para reduzir tudo ao trauma.
Não para procurar uma causa escondida para cada dificuldade.
Não para transformar o corpo em depósito de experiências.
Mas para reconhecer que algumas respostas atuais podem ter sido construídas em condições muito diferentes das condições presentes.
E aquilo que foi aprendido também pode ser atualizado.
O corpo não é apenas o lugar onde a reação aparece
Se experiências adversas podem influenciar a maneira como o organismo responde, existe uma parte dessa história que merece receber a mesma atenção:
o corpo também participa da recuperação.
Ele participa quando a respiração consegue voltar ao ritmo depois de uma situação difícil.
Quando a pessoa percebe tensão sem entrar em pânico.
Quando consegue permanecer presente em uma conversa que antes evitaria.
Quando sente proximidade e descobre que não precisa fugir.
Quando estabelece um limite e percebe que continua pertencendo.
Quando recebe cuidado e consegue permanecer ali.
Quando experimenta segurança não apenas como conceito, mas como experiência.
Isso muda a perspectiva.
O corpo deixa de ser apresentado apenas como lugar onde as marcas aparecem e passa a ser compreendido como parte de um organismo capaz de aprender, discriminar, atualizar e construir novas respostas.
Talvez seja essa uma das dimensões mais importantes da recuperação humana.
O que aconteceu passou. E reconhecer isso pode precisar acontecer em mais de um nível
Às vezes, a pessoa já sabe que passou.
Sabe racionalmente.
Sabe cronologicamente.
Sabe porque olha ao redor e vê que a vida é outra.
Mas determinados estímulos ainda mobilizam respostas construídas quando a realidade era diferente.
Isso não significa que ela esteja condenada a repetir o passado.
Também não significa que exista alguma coisa “quebrada” dentro dela.
Significa que experiências importantes podem produzir aprendizagens importantes.
E que novas experiências também podem produzir novas aprendizagens.
O trabalho terapêutico pode envolver justamente essa diferenciação: compreender aquilo que aconteceu, reconhecer como continua influenciando o presente, identificar respostas que ainda são necessárias e aquelas que se tornaram automáticas, processar experiências relevantes e ampliar a possibilidade de escolher respostas mais compatíveis com a vida atual.
Porque talvez recuperação não signifique nunca mais sentir medo, tensão, tristeza ou desconforto.
Talvez signifique não precisar responder automaticamente a cada sinal do presente com as estratégias que foram necessárias no passado.
O acontecimento permanece na história.
Mas a história deixa de precisar acontecer novamente dentro de cada situação parecida.
E, aos poucos, uma diferença fundamental pode se tornar mais acessível:
“Isso aconteceu comigo. Mas não está acontecendo agora.”
Perguntas frequentes
Se eu sei que estou seguro, por que continuo sentindo medo?
Porque reconhecer conscientemente a segurança e modificar respostas aprendidas não são processos idênticos. Pistas externas ou sensações internas podem adquirir associações com ameaça e mobilizar respostas antes de uma avaliação consciente mais elaborada. Isso não significa automaticamente que exista um transtorno. A intensidade, frequência, contexto e impacto dessas respostas precisam ser considerados.
O corpo realmente guarda experiências traumáticas?
Não há fundamento científico para afirmar literalmente que uma experiência traumática fique armazenada em músculos, fáscias ou determinada região do corpo. Experiências adversas podem, entretanto, influenciar memória, aprendizagem, percepção de ameaça, respostas autonômicas, interocepção e comportamento. Portanto, o corpo participa da experiência e das respostas posteriores, mas isso é diferente da ideia de um depósito físico de trauma.
Uma dor ou tensão recorrente pode significar que existe um trauma não processado?
Não é possível fazer essa conclusão a partir de um sintoma físico. Dores e tensões podem possuir diversas causas e precisam ser avaliadas adequadamente. Aspectos emocionais podem participar de determinados quadros, mas não devem ser presumidos como causa sem uma avaliação mais ampla.
Posso ter reações relacionadas a experiências que não lembro?
Não é adequado utilizar uma reação corporal como prova de uma memória traumática esquecida. Memória humana é reconstrutiva e suscetível a diferentes influências. A ausência de uma lembrança não autoriza concluir que determinado evento aconteceu. Clinicamente, trabalha-se com aquilo que a pessoa apresenta e com sua história conhecida, evitando induzir narrativas ou afirmar acontecimentos sem evidência.
Por que às vezes fico imóvel em vez de fugir ou reagir?
Diante de ameaça ou estresse intenso, respostas humanas podem assumir diferentes formas e não se limitam à fuga ou ao enfrentamento. Imobilidade, redução da resposta e fenômenos dissociativos podem ocorrer em determinadas circunstâncias. Entretanto, um episódio de “ficar sem reação” não é suficiente, isoladamente, para diagnosticar trauma ou dissociação.
Entender a origem de uma reação é suficiente para mudá-la?
Nem sempre. Compreensão pode ser uma parte importante do processo, mas padrões emocionais e comportamentais também envolvem aprendizagem e experiência. Dependendo da dificuldade, novas experiências, desenvolvimento de recursos e intervenções psicoterapêuticas específicas podem participar da mudança.
Como o EMDR trabalha com experiências do passado que continuam influenciando o presente?
O EMDR é orientado pelo modelo de Processamento Adaptativo da Informação. A conceitualização pode considerar experiências anteriores relacionadas à dificuldade atual, situações presentes que ativam respostas e possibilidades de funcionamento futuro. O AIP propõe que experiências perturbadoras insuficientemente processadas podem continuar influenciando percepções, emoções, crenças e sensações atuais. É importante lembrar que o AIP é um modelo teórico clínico e não uma descrição definitivamente comprovada de todos os mecanismos neurobiológicos envolvidos no EMDR.
Trabalhar com o corpo significa necessariamente fazer terapia somática?
Não. Diferentes abordagens psicoterapêuticas consideram aspectos corporais em graus variados. Uma perspectiva somática pode ampliar a atenção às sensações, respostas fisiológicas, postura, respiração e percepção interna, mas essas informações precisam ser contextualizadas e não interpretadas automaticamente como evidências de experiências traumáticas.
É possível deixar de reagir dessa maneira?
Respostas aprendidas podem mudar. Isso não significa prometer que determinada sensação desaparecerá completamente ou que o passado será apagado. A aprendizagem de segurança, a atualização de respostas e o processamento de experiências podem ampliar a capacidade de diferenciar contextos e responder ao presente com maior flexibilidade. Pesquisas sobre aprendizagem e extinção de medo demonstram justamente que novas associações de segurança podem ser construídas.
Quando uma reação merece atenção profissional?
Quando respostas emocionais ou corporais são persistentes, intensas, provocam sofrimento significativo, interferem nos relacionamentos, no trabalho, no sono ou na vida cotidiana, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo. Sintomas físicos também devem receber investigação médica quando indicado, evitando atribuir automaticamente manifestações corporais a causas psicológicas.
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