Você aprendeu a não se apegar para não sofrer novamente? Como perdas na infância podem repercutir nos relacionamentos adultos

Luciene Marinho

8/12/202613 min read

Uma criança perde alguém profundamente importante e, de repente, precisa continuar vivendo em um mundo que já não parece o mesmo. Os adultos ao redor também estão sofrendo, a rotina precisa continuar e, muitas vezes, ninguém sabe exatamente como conversar sobre o que aconteceu. Algumas perguntas ficam sem resposta, sentimentos difíceis não encontram espaço para serem expressos e aquilo que deveria ter sido vivido com presença, explicações e apoio acaba atravessado em silêncio.

A criança continua crescendo.

Volta à escola, brinca, entra na adolescência, constrói amizades, inicia relacionamentos, torna-se adulta e aparentemente segue a vida. A ausência continua fazendo parte de sua história, mas talvez já não seja percebida conscientemente como algo que interfere no presente.

Décadas depois, entretanto, determinados comportamentos podem chamar atenção. Existe dificuldade para depender emocionalmente de alguém, desconforto quando uma relação se torna profunda, medo intenso de perder pessoas importantes ou uma tendência a manter certa distância justamente daqueles de quem mais gosta. Algumas pessoas terminam relações quando percebem que estão ficando emocionalmente envolvidas; outras permanecem nos relacionamentos, mas evitam demonstrar vulnerabilidade ou precisar do outro.

Nem sempre essas dificuldades estarão relacionadas a uma perda vivida na infância ou adolescência. Relacionamentos adultos são construídos a partir de múltiplos fatores e seria simplista atribuir a esquiva afetiva a um único acontecimento.

Entretanto, para algumas pessoas, compreender como uma perda precoce foi vivida, e principalmente como ela foi acolhida depois que aconteceu, pode revelar uma parte importante da história de seus relacionamentos.

Uma criança não vive o luto da mesma maneira que um adulto

Quando falamos sobre luto infantil, existe uma questão fundamental: a criança está tentando compreender uma perda ao mesmo tempo em que ainda está desenvolvendo os recursos necessários para compreender a própria vida.

A percepção da morte, sua irreversibilidade e suas implicações se desenvolvem progressivamente. Dependendo da idade, do estágio de desenvolvimento e das informações recebidas, a criança pode ter uma compreensão muito diferente daquela de um adulto sobre o que aconteceu.

Por isso, elaborar uma perda na infância não depende apenas da passagem do tempo.

A criança precisa encontrar adultos capazes de ajudá-la a nomear emoções, compreender o acontecimento, fazer perguntas, manter algum senso de continuidade e perceber que seus sentimentos podem existir sem ameaçar ainda mais a estabilidade familiar.

Isso nem sempre acontece.

Às vezes, os próprios adultos estão emocionalmente devastados pela perda e possuem poucos recursos para acolher o sofrimento da criança. Em outras situações, existe a tentativa bem-intencionada de protegê-la: evita-se falar sobre a pessoa que morreu, escondem-se informações, muda-se de assunto quando ela pergunta ou tenta-se fazê-la voltar rapidamente à rotina.

Há ainda situações em que a dor infantil é minimizada porque se acredita que crianças esquecem facilmente ou “não entendem direito o que aconteceu”.

O silêncio pode parecer proteção para o adulto, mas para a criança pode significar que aquele sofrimento não possui um lugar onde possa ser compartilhado.

O que acontece quando o luto não encontra acolhimento?

Não existe uma única forma correta de viver o luto, assim como não existe um prazo universal para sua elaboração. A maioria das crianças e adolescentes enlutados não desenvolverá necessariamente um transtorno psicológico, e uma perda importante não deve ser automaticamente transformada em doença.

Ainda assim, a literatura mostra que algumas condições podem aumentar a vulnerabilidade após uma perda, enquanto outras funcionam como fatores de proteção. Entre os elementos associados a maior dificuldade estão estressores adicionais, outras perdas, estratégias persistentes de evitação e determinadas circunstâncias relacionadas à morte; por outro lado, suporte social e relações capazes de oferecer segurança aparecem como importantes fatores protetivos.

Isso ajuda a compreender por que duas crianças podem atravessar perdas semelhantes e construir trajetórias completamente diferentes.

Não é apenas quem morreu que importa.

Também importa o que aconteceu depois.

Quem permaneceu emocionalmente disponível? A criança pôde falar sobre a morte? Suas perguntas foram respondidas de acordo com sua capacidade de compreensão? Houve espaço para tristeza, raiva, medo, saudade ou confusão? A rotina familiar tornou-se profundamente instável? Outros adultos significativos permaneceram presentes?

O luto acontece dentro de um contexto relacional.

Quando existe apoio, a criança não deixa de sofrer, mas encontra alguém com quem compartilhar aquilo que ainda não consegue organizar sozinha.

Quando esse apoio não existe, ela pode precisar encontrar outras maneiras de continuar funcionando.

Às vezes, continuar funcionando exige aprender a não sentir tanto

Crianças são extraordinariamente adaptativas.

Quando determinado sentimento parece grande demais e não existe alguém disponível para ajudá-las a atravessá-lo, algumas aprendem a afastar-se da experiência emocional; outras tentam não pensar no acontecimento; algumas assumem responsabilidades precocemente; outras percebem que demonstrar sofrimento preocupa ainda mais os adultos e começam a escondê-lo.

Essas respostas não devem ser interpretadas simplesmente como defeitos ou fraquezas. Em determinado contexto, podem representar tentativas de continuar vivendo diante de uma experiência para a qual a criança ainda não possuía recursos suficientes.

O problema é que estratégias construídas para atravessar uma perda podem continuar sendo utilizadas muito tempo depois de terem cumprido sua função original.

A pessoa cresce, mas determinadas formas de proteção permanecem.

É aqui que o passado pode começar a aparecer silenciosamente nos relacionamentos do presente.

“Se eu não precisar de ninguém, não vou perder ninguém”

Raramente uma pessoa adulta formula essa frase conscientemente.

Na prática, ela pode aparecer de maneiras muito mais sutis.

A pessoa valoriza excessivamente a independência, sente desconforto ao depender emocionalmente de alguém, evita pedir ajuda, não gosta de demonstrar fragilidade ou percebe que começa a se afastar justamente quando uma relação se torna mais íntima.

Também pode existir outro movimento aparentemente oposto: quanto mais importante alguém se torna, maior é o medo de perdê-lo. Nesse caso, a proximidade não produz apenas segurança; ela também desperta a percepção de que agora existe algo importante que pode desaparecer.

A teoria do apego oferece uma contribuição importante para compreender esse funcionamento. Desde os trabalhos de John Bowlby, sabemos que os vínculos de apego estão profundamente relacionados à maneira como buscamos proximidade e segurança diante de ameaça, separação e perda.

Isso não significa que perder alguém na infância automaticamente produza um estilo de apego evitativo.

Uma pesquisa publicada recentemente sobre perda parental na infância e relacionamentos amorosos adultos encontrou justamente uma realidade mais complexa. Pessoas que haviam perdido um dos pais na infância não apresentaram necessariamente menor formação ou estabilidade de relacionamentos nem menor satisfação conjugal. Entretanto, relataram níveis maiores de ansiedade relacionada ao apego e de esquiva em determinadas comparações, mostrando uma possível associação entre perda precoce e algumas dimensões da insegurança nos vínculos adultos.

Essa distinção é essencial.

A perda não condena alguém a relacionamentos difíceis.

Mas pode participar da história através da qual proximidade, dependência e possibilidade de perda passaram a ser emocionalmente interpretadas.

Amar alguém também significa reconhecer que podemos perdê-lo

Todo vínculo significativo envolve vulnerabilidade.

Não existe intimidade profunda sem alguma possibilidade de sofrimento, porque quanto mais importante alguém se torna, maior é também a importância de sua permanência.

Para uma pessoa que viveu uma perda importante muito cedo e não encontrou condições suficientes para processá-la, essa vulnerabilidade pode adquirir um significado particular.

A intimidade pode ativar não apenas desejo de proximidade, mas também antecipação da perda.

Em alguns casos, o sistema de proteção encontra uma solução aparentemente eficiente: não se envolver completamente.

Se eu não depender, sofrerei menos; se não demonstrar tudo o que sinto, estarei protegido; se mantiver algum controle sobre a distância, ninguém terá poder suficiente para me destruir emocionalmente.

Esse funcionamento pode reduzir temporariamente a sensação de vulnerabilidade, mas possui um custo importante. A mesma estratégia utilizada para evitar a dor da perda pode também dificultar a experiência de segurança, intimidade e reciprocidade.

A pessoa se protege da possibilidade de perder e, ao mesmo tempo, pode se privar da possibilidade de construir vínculos mais profundos.

A esquiva nem sempre parece afastamento

Existe uma tendência a imaginar a pessoa emocionalmente esquiva como alguém frio, distante ou incapaz de estabelecer relacionamentos. Na prática clínica, entretanto, o funcionamento humano raramente é tão simples.

Uma pessoa pode ser afetuosa, sociável, responsável e extremamente presente na vida dos outros, enquanto mantém cuidadosamente protegidas determinadas partes de si.

Pode cuidar de todos e ter enorme dificuldade para permitir que cuidem dela.

Pode conversar sobre muitos assuntos, mas evitar aquilo que a torna vulnerável.

Pode estabelecer relacionamentos longos e ainda assim manter uma sensação interna de autossuficiência obrigatória.

Pode amar profundamente e, ao mesmo tempo, sentir medo quando percebe o quanto alguém se tornou importante.

Por isso, compreender a esquiva exige olhar além do comportamento aparente. O ponto central não é simplesmente saber se alguém se relaciona ou não, mas compreender o que acontece internamente quando existe proximidade emocional, dependência, separação ou possibilidade de perda.

O corpo também pode guardar a expectativa da perda

Nem todas as respostas relacionadas à perda aparecem como pensamentos claros.

Às vezes, a pessoa racionalmente sabe que está em uma relação segura, mas percebe tensão quando alguém demora a responder; sente necessidade de se afastar depois de momentos de grande intimidade; experimenta inquietação quando depende de outra pessoa ou percebe alterações corporais intensas diante de separações aparentemente pequenas.

Essas reações não significam necessariamente que exista uma memória específica sendo “reproduzida” pelo corpo. O funcionamento é mais complexo. Experiências repetidas de segurança e ameaça participam da aprendizagem emocional e podem influenciar expectativas, atenção e respostas fisiológicas diante de situações que possuem algum significado semelhante.

Por isso, trabalhar apenas com aquilo que a pessoa racionalmente sabe pode não ser suficiente.

Ela pode saber que o parceiro não vai abandoná-la e continuar sentindo medo; pode compreender que pedir ajuda é saudável e continuar experimentando desconforto quando precisa de alguém; pode reconhecer que o relacionamento atual é diferente das experiências anteriores e ainda assim perceber que seu corpo reage como se proximidade significasse risco.

É justamente nessa distância entre aquilo que sabemos e aquilo que sentimos que muitas histórias antigas continuam aparecendo.

Luto não elaborado não significa simplesmente “não ter superado”

A expressão “superar o luto” pode transmitir uma ideia equivocada de que existe um ponto no qual a perda deveria deixar de importar.

As concepções contemporâneas de luto são mais complexas. A elaboração não exige apagar o vínculo com quem morreu, esquecer a pessoa ou deixar de sentir saudade. O processo envolve encontrar maneiras de integrar a realidade da perda à própria história e continuar investindo na vida enquanto se mantém uma relação interna transformada com aquilo que foi perdido.

Modelos contemporâneos, como o Processo Dual de Stroebe e Schut, descrevem o luto como um movimento entre momentos mais orientados para a perda e momentos voltados para a reconstrução da vida. Isso ajuda a abandonar a expectativa de que exista uma sequência rígida de etapas pelas quais todas as pessoas obrigatoriamente deveriam passar.

Na infância e na adolescência, essa integração pode ser ainda mais dinâmica porque novos significados podem surgir conforme a pessoa amadurece. Uma criança pode compreender determinada perda de uma maneira aos oito anos e revisitá-la emocionalmente aos quinze, aos vinte ou quando inicia um relacionamento significativo, torna-se mãe ou pai ou alcança uma etapa da vida que gostaria de compartilhar com quem morreu.

O luto também pode acompanhar o desenvolvimento.

Quando uma relação atual desperta uma perda antiga

Algumas pessoas procuram psicoterapia porque percebem dificuldades nos relacionamentos atuais sem imaginar que uma perda antiga possa fazer parte desse funcionamento.

A queixa pode ser medo de se envolver, dificuldade de confiar, necessidade excessiva de controle, desconforto diante de dependência emocional ou tendência a se afastar quando alguém se aproxima demais.

Durante o processo terapêutico, às vezes emerge uma história que havia permanecido aparentemente distante.

Não porque todo relacionamento difícil esconda um luto infantil, mas porque experiências atuais podem tocar temas antigos relacionados à separação, segurança, pertencimento e perda.

Nesse momento, a pergunta deixa de ser apenas “por que eu faço isso?” e passa a incluir outra possibilidade: “o que essa distância tem tentado proteger?”

Essa mudança de perspectiva pode ser importante porque retira o comportamento do campo do julgamento e o coloca no campo da compreensão.

É possível construir uma experiência diferente de vínculo

Compreender a origem de uma estratégia não significa permanecer preso a ela.

O cérebro, o corpo e o funcionamento emocional continuam sendo influenciados por novas experiências ao longo da vida. Relações seguras, experiências corretivas, novos aprendizados e processos psicoterapêuticos podem favorecer maneiras diferentes de lidar com proximidade, vulnerabilidade e separação.

Quando uma perda precoce continua associada a sofrimento significativo, o trabalho terapêutico pode envolver diferentes dimensões: compreender como a pessoa viveu aquela perda; reconhecer aquilo que não pôde ser sentido ou compartilhado naquele momento; identificar crenças construídas a partir da experiência; observar estratégias de proteção que continuam sendo utilizadas; ampliar recursos para lidar com as respostas emocionais e corporais que aparecem no presente.

Dependendo da avaliação clínica, abordagens como a Terapia EMDR podem ser utilizadas para trabalhar experiências perturbadoras e memórias que continuam associadas a respostas emocionais intensas. Recursos somáticos podem ajudar a ampliar a percepção e a tolerância às respostas corporais relacionadas à proximidade, separação e vulnerabilidade, enquanto a teoria do apego oferece uma perspectiva importante para compreender como segurança e vínculo foram construídos ao longo da história daquela pessoa.

Nenhuma técnica, entretanto, substitui a compreensão individualizada.

O objetivo não é encontrar uma explicação única para todos os relacionamentos atuais, mas compreender de que maneira aquela história específica continua, ou não, participando da vida presente.

Talvez você não tenha aprendido a não amar. Talvez tenha aprendido a se proteger da perda.

Existe uma diferença profunda entre essas duas interpretações.

Quando alguém se percebe como frio, distante ou “incapaz de se entregar”, é fácil transformar um padrão relacional em uma característica definitiva de personalidade.

Mas comportamentos possuem histórias.

Para algumas pessoas, manter distância foi uma maneira de reduzir a possibilidade de reviver uma dor que um dia chegou cedo demais e encontrou pouco espaço para ser acolhida.

Isso não significa que toda esquiva venha de um luto, nem que uma perda precoce determine o futuro dos relacionamentos. Significa apenas reconhecer que aquilo que hoje parece uma dificuldade pode ter sido, em outro momento, uma tentativa legítima de proteção.

Talvez a questão não seja simplesmente aprender a se apegar mais.

Talvez seja construir, aos poucos, uma experiência diferente: descobrir que proximidade não precisa significar perda iminente; que depender de alguém não elimina autonomia; que amar envolve vulnerabilidade, mas também pode envolver segurança; e que uma história marcada por uma perda importante não precisa determinar todas as relações que virão depois.

Às vezes, compreender por que aprendemos a nos proteger é justamente o que começa a tornar possível escolher quando essa proteção ainda é necessária, e quando já podemos viver de outra maneira.

Perguntas frequentes

Perder alguém na infância pode causar dificuldades nos relacionamentos adultos?

Pode estar associado a determinadas dificuldades em algumas pessoas, mas não existe uma relação automática de causa e efeito. Pesquisas sugerem associações entre perda parental precoce e dimensões de insegurança de apego na vida adulta, mas a trajetória depende de diversos fatores, incluindo qualidade dos vínculos, suporte recebido após a perda, outras experiências de vida e recursos individuais.

Uma criança pode parecer bem e ainda estar sofrendo com o luto?

Sim. Crianças podem alternar momentos de tristeza com brincadeiras, atividades escolares e interesse por outras coisas. Isso não significa necessariamente ausência de sofrimento. A expressão do luto infantil pode ser diferente da expressão adulta e também variar conforme a etapa do desenvolvimento.

Não falar sobre a pessoa que morreu ajuda a criança a esquecer?

Evitar o assunto não é considerado uma condição necessária para uma adaptação saudável. Crianças geralmente se beneficiam de comunicação adequada à idade, possibilidade de fazer perguntas e disponibilidade de adultos para conversar sobre a perda sem obrigá-las a falar quando não desejam.

Esquiva afetiva significa que a pessoa tem medo de perder alguém?

Não necessariamente. A esquiva pode ter diferentes origens e funções. Em algumas histórias, entretanto, a possibilidade de depender emocionalmente de alguém pode se tornar associada à vulnerabilidade diante de uma nova perda.

É possível elaborar um luto vivido muitos anos atrás?

Sim. O fato de uma perda ter ocorrido na infância não impede que seus significados sejam revisitados na vida adulta. O objetivo não é apagar a experiência, mas integrá-la à história de forma que ela possa ser lembrada sem necessariamente continuar organizando respostas desproporcionais no presente.

A Terapia EMDR pode ser utilizada para trabalhar perdas antigas?

Pode ser considerada quando a avaliação identifica experiências relacionadas à perda que permanecem associadas a sofrimento significativo, crenças negativas ou respostas emocionais intensas. A indicação depende da história e das necessidades de cada pessoa, e o tratamento do luto não se resume a uma única técnica.

Referências bibliográficas

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