
Você superou ou apenas aprendeu a funcionar apesar do que aconteceu?
7/8/20264 min read



Muitas pessoas chegam à vida adulta acreditando que superaram tudo o que viveram porque conseguiram continuar.
Elas estudaram, construíram uma carreira, assumiram responsabilidades, formaram famílias, cuidaram de outras pessoas e encontraram formas de seguir em frente.
Por fora, a vida parece organizada.
Mas, em alguns momentos, começam a surgir sinais difíceis de compreender: uma dificuldade profunda para relaxar, necessidade constante de controle, medo intenso de falhar, sensação de nunca fazer o suficiente ou um cansaço emocional que não melhora apenas com descanso.
Isso acontece porque continuar funcionando não significa, necessariamente, que tudo aquilo que foi vivido foi emocionalmente processado.
Algumas experiências não impedem uma pessoa de seguir a vida, mas podem influenciar silenciosamente a maneira como ela se percebe, se relaciona e responde ao mundo.
Quando funcionar se torna uma forma de adaptação
O ser humano possui uma enorme capacidade de adaptação.
Diante de ambientes difíceis, perdas, instabilidade emocional, excesso de responsabilidade ou ausência de suporte adequado, desenvolvemos estratégias para conseguir atravessar determinados períodos.
Para algumas pessoas, ser independente demais foi necessário.
Para outras, aprender a não demonstrar emoções foi uma maneira de evitar críticas ou rejeições.
Existem pessoas que aprenderam cedo a observar o humor dos outros, evitar conflitos, assumir responsabilidades ou buscar aprovação como uma forma de manter alguma sensação de segurança.
Essas respostas não surgem porque existe algo errado com a pessoa. Muitas vezes, elas representam tentativas inteligentes do cérebro e do organismo para lidar com aquilo que estava disponível naquele momento.
A questão é que algumas estratégias que foram importantes no passado podem continuar sendo utilizadas mesmo quando a realidade atual já é diferente.
O passado nem sempre aparece como lembrança
Existe uma ideia comum de que experiências difíceis permanecem apenas como memórias claras do que aconteceu.
Mas nem sempre é assim.
Muitas marcas emocionais aparecem na vida adulta como padrões:
dificuldade em confiar;
necessidade de controlar tudo;
medo excessivo de errar;
sensação constante de alerta;
dificuldade em receber cuidado;
culpa ao colocar limites;
sensação de nunca ser suficiente.
A pessoa pode não pensar diariamente sobre o passado, mas ainda assim carregar respostas emocionais construídas a partir dele.
O corpo e o cérebro aprendem através das experiências. Principalmente quando essas experiências aconteceram em períodos importantes do desenvolvimento ou envolveram situações emocionalmente intensas.
Experiências adversas e o impacto no sistema nervoso
Na Psicotraumatologia, compreendemos que algumas experiências podem ultrapassar a capacidade emocional de processamento disponível naquele momento.
Isso não envolve apenas grandes acontecimentos traumáticos.
Também pode estar relacionado a vivências repetidas de insegurança emocional, críticas constantes, rejeição, negligência afetiva, excesso de responsabilidade precoce, relações instáveis, perdas ou períodos prolongados de estresse.
As primeiras relações e experiências de vida participam da construção da forma como percebemos segurança, vínculo e pertencimento.
Quando uma pessoa precisou permanecer muito tempo em estado de adaptação, algumas respostas de proteção podem se tornar padrões automáticos.
Aquilo que antes ajudou a atravessar uma fase difícil pode, anos depois, aparecer como ansiedade, exaustão emocional ou dificuldade em viver com mais tranquilidade.
Pessoas fortes também podem carregar histórias difíceis
Muitas pessoas que passaram por experiências adversas desenvolveram grande capacidade de realização.
São responsáveis, produtivas, cuidadosas e frequentemente vistas como fortes pelos outros.
Mas existe uma diferença entre escolher ser forte e sentir que não existe outra opção.
Algumas pessoas aprenderam tão bem a funcionar que demoraram anos para perceber o quanto estavam emocionalmente sobrecarregadas.
Construíram uma vida admirável carregando padrões que um dia foram necessários para sobreviver emocionalmente.
Como a Terapia EMDR pode ajudar no processamento dessas experiências
A Terapia EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), ou Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares, é uma abordagem psicoterapêutica baseada em evidências desenvolvida para auxiliar no processamento de memórias e experiências emocionalmente difíceis.
A proposta não é apagar o passado.
As experiências fazem parte da história de cada pessoa.
O objetivo é possibilitar que aquilo que aconteceu deixe de produzir respostas emocionais intensas no presente, permitindo que o cérebro integre essas informações de uma forma mais adaptativa.
Ao trabalhar experiências adversas, crenças negativas e respostas emocionais associadas, o processo terapêutico favorece novas formas de perceber a si mesmo e suas relações.
Superar também significa transformar a forma como você carrega sua história
Seguir em frente demonstra recursos, força e capacidade de adaptação.
Mas uma pergunta importante pode ser:
você realmente superou ou apenas aprendeu a funcionar apesar do que aconteceu?
Olhar para a própria história não significa permanecer preso ao passado.
Significa compreender quais caminhos precisaram ser construídos para sobreviver e quais deles talvez já não sejam mais necessários.
Algumas experiências podem explicar partes da sua história, mas não precisam continuar definindo todas as suas respostas no presente.
Luciene Marinho
Psicóloga | Neuropsicóloga | Terapeuta EMDR
Atendimento presencial em São Paulo e psicoterapia online para brasileiros no Brasil e no exterior.
