Solidão no exterior: por que morar em outro país pode afetar seu senso de pertencimento
Luciene Marinho
3/17/20266 min read



Uma das experiências mais frequentes entre brasileiros que vivem no exterior nem sempre aparece nas fotografias das viagens, nas conquistas profissionais ou nas publicações das redes sociais. Ela costuma ser silenciosa, difícil de explicar e, muitas vezes, acompanhada de culpa.
É a sensação de solidão.
Curiosamente, essa solidão pode existir mesmo quando a pessoa mora com o parceiro, constituiu uma família, trabalha diariamente ou mantém contato frequente com amigos e familiares no Brasil.
Isso acontece porque a solidão nem sempre significa estar sozinho.
Em muitos casos, ela está relacionada à sensação de não pertencer completamente ao lugar onde se vive, de sentir falta das conexões espontâneas que antes faziam parte da rotina ou de perceber que uma parte importante da própria identidade ficou ligada ao país de origem.
Na Psicologia Intercultural, compreendemos que essa experiência faz parte dos desafios emocionais da imigração e merece ser entendida para além da ideia de que "é preciso apenas fazer novos amigos".
O ser humano precisa de pertencimento
Desde os primeiros anos de vida, desenvolvemos nossa identidade por meio das relações.
Aprendemos quem somos através da família, da cultura, da língua, dos costumes, dos lugares que frequentamos e das pessoas com quem convivemos.
O sentimento de pertencimento não é apenas uma experiência social.
Ele também exerce um papel importante no funcionamento do sistema nervoso.
Quando nos sentimos acolhidos, compreendidos e conectados, o organismo tende a reconhecer o ambiente como mais seguro.
Por outro lado, quando essas referências diminuem de forma significativa, o cérebro pode interpretar essa mudança como uma condição de maior vulnerabilidade.
Por isso, a sensação de solidão durante a imigração não deve ser compreendida apenas como falta de companhia.
Ela também envolve a reorganização dos vínculos que sustentavam a sensação de segurança.
Mudar de país também significa perder referências
Ao decidir viver em outro país, normalmente pensamos nas mudanças mais visíveis.
Novo idioma.
Nova cultura.
Novo trabalho.
Nova rotina.
Entretanto, existem perdas mais sutis que raramente recebem a mesma atenção.
A conversa espontânea com familiares.
Os encontros inesperados com amigos.
As expressões que não precisam ser explicadas.
Os lugares que despertavam lembranças.
Os costumes compartilhados.
Até pequenas experiências do cotidiano, como compreender o humor de uma conversa ou sentir-se completamente à vontade em um ambiente social, podem mudar profundamente.
Essas perdas nem sempre são percebidas de imediato, mas podem contribuir para uma sensação persistente de desconexão.
É possível sentir-se sozinho mesmo estando acompanhado
Essa é uma das dúvidas mais comuns entre expatriados.
"Moro com minha família. Tenho colegas de trabalho. Converso todos os dias com pessoas. Por que continuo me sentindo sozinho?"
Porque pertencimento e convivência não são exatamente a mesma coisa.
Pertencer significa sentir que existe um espaço onde você pode ser compreendido, reconhecido e aceito sem precisar adaptar constantemente sua forma de falar, agir ou pensar.
Na imigração, muitas relações ainda estão sendo construídas.
Mesmo quando são positivas, frequentemente exigem mais energia, mais explicações e um esforço contínuo de adaptação.
O resultado pode ser uma sensação de isolamento emocional, mesmo na presença de outras pessoas.
Quando a solidão encontra experiências anteriores
Nem toda pessoa vivencia a solidão da mesma maneira.
Algumas conseguem construir rapidamente novos vínculos.
Outras experimentam um sofrimento muito mais intenso.
Na Psicotraumatologia, compreendemos que experiências adversas vividas anteriormente podem influenciar essa diferença.
Pessoas que cresceram sentindo-se pouco compreendidas, rejeitadas, emocionalmente negligenciadas ou inseguras em seus vínculos podem perceber a perda das referências sociais da imigração de maneira ainda mais intensa.
Isso não significa que a mudança de país criou essas experiências.
Em muitos casos, ela apenas tornou mais visíveis padrões emocionais que já existiam.
O impacto da solidão no sistema nervoso
A neurociência demonstra que os relacionamentos exercem influência direta sobre o funcionamento do cérebro e do sistema nervoso.
Conexões humanas consistentes favorecem a sensação de segurança, ajudam na regulação emocional e reduzem a percepção de ameaça.
Quando a pessoa permanece durante muito tempo sentindo que não pertence ao ambiente em que vive, o organismo pode permanecer mais atento, mais cansado e mais vulnerável ao estresse.
Isso ajuda a compreender por que algumas pessoas relatam aumento da ansiedade, dificuldade para descansar, alterações do sono, exaustão emocional ou redução da motivação após a mudança de país.
Esses sintomas não surgem apenas pela distância física.
Eles também podem refletir o impacto da perda temporária de importantes fontes de conexão e segurança.
Construir pertencimento leva tempo
Existe uma expectativa comum de que a adaptação acontece naturalmente com o passar dos meses.
Embora o tempo seja importante, ele não é o único fator envolvido.
Pertencimento não acontece apenas porque uma pessoa mora em determinado país há vários anos.
Ele é construído através de experiências repetidas de conexão, confiança e participação na comunidade.
Criar novos vínculos, desenvolver uma rotina significativa, preservar aspectos importantes da cultura de origem e encontrar espaços onde seja possível expressar quem se é contribuem para essa reconstrução.
Ao mesmo tempo, cada pessoa percorre esse caminho em um ritmo diferente.
Como a Terapia EMDR pode ajudar
A Terapia EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), ou Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares, é uma abordagem baseada em evidências que auxilia no processamento de experiências emocionalmente difíceis.
No contexto da imigração, esse trabalho pode envolver perdas, rupturas familiares, isolamento, discriminação, dificuldades de adaptação e experiências anteriores que continuam influenciando a forma como a pessoa constrói vínculos e percebe pertencimento.
Ao favorecer o processamento dessas experiências, muitas pessoas conseguem desenvolver uma relação mais segura consigo mesmas e com o ambiente em que vivem.
O papel das abordagens somáticas
A sensação de pertencimento não acontece apenas através dos pensamentos.
Ela também é vivida pelo corpo.
Quando o organismo permanece por muito tempo em estado de alerta, estabelecer novas conexões pode tornar-se mais difícil.
As abordagens somáticas ajudam a ampliar a percepção das respostas corporais relacionadas ao estresse, fortalecer recursos internos e favorecer experiências de maior segurança fisiológica.
Esse processo não elimina a saudade nem substitui os vínculos deixados no país de origem.
Mas pode ajudar o sistema nervoso a reconhecer que é possível construir novas conexões sem abandonar a própria história.
Pertencer não significa deixar de ser quem você era
Uma das maiores preocupações de muitos brasileiros que vivem no exterior é a sensação de estar perdendo parte da própria identidade.
Na realidade, pertencimento não exige abandonar suas origens.
É possível manter a cultura, os valores e os vínculos construídos ao longo da vida enquanto se desenvolvem novas formas de conexão no país onde se vive.
A imigração transforma pessoas.
Mas essa transformação não precisa significar isolamento.
Quando compreendemos como o cérebro, o sistema nervoso e a história de vida participam desse processo, torna-se possível construir um novo sentimento de pertencimento sem abrir mão daquilo que faz parte de quem somos.
Perguntas frequentes
É normal sentir solidão mesmo morando com a família?
Sim. A solidão está relacionada não apenas à presença de pessoas, mas também ao sentimento de pertencimento, conexão emocional e identificação com o ambiente em que se vive.
A solidão pode aumentar a ansiedade durante a imigração?
Pode. A redução da rede de apoio e a necessidade constante de adaptação podem aumentar a sensação de vulnerabilidade e contribuir para sintomas de ansiedade e exaustão emocional.
Quanto tempo leva para sentir pertencimento em outro país?
Não existe um prazo. O processo depende de diversos fatores, como a história de vida, a cultura local, a construção de novos vínculos, a rede de apoio e as experiências vividas durante a adaptação.
Como a Terapia EMDR pode ajudar brasileiros no exterior?
Quando indicada, a Terapia EMDR pode integrar um plano terapêutico voltado ao processamento de experiências emocionalmente difíceis relacionadas tanto à história de vida quanto ao processo migratório, favorecendo uma adaptação mais saudável.
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- Exaustão emocional do expatriado: quando a adaptação constante esgota o sistema nervoso.
Atendimento psicológico para brasileiros no exterior
Viver em outro país pode ampliar oportunidades, mas também trazer desafios emocionais que nem sempre são compreendidos por quem está ao redor. Se a solidão, a dificuldade de pertencimento ou a adaptação têm afetado sua qualidade de vida, buscar acompanhamento psicológico pode ser um passo importante. Meu trabalho integra Psicologia Intercultural, Neurociência, Psicotraumatologia, Terapia EMDR e abordagens somáticas, oferecendo psicoterapia online para brasileiros que vivem em diferentes países, respeitando sua história, seu contexto cultural e as transformações que fazem parte da experiência de viver no exterior.
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