
A pressão para dar certo no exterior: perfeccionismo, alta performance e medo de fracassar
Luciene Marinho
9/23/202618 min read



Mudar de país pode representar uma das decisões mais importantes da vida de uma pessoa e, para muitos brasileiros, essa mudança vem acompanhada de projetos profissionais, expectativas de crescimento, desejo de segurança, oportunidades que talvez não fossem possíveis no Brasil e a esperança de construir uma vida diferente. Existe entusiasmo nessa experiência, mas também pode existir uma pressão muito menos comentada, que começa a aparecer quando a pessoa percebe tudo aquilo que precisou deixar, investir, reorganizar e enfrentar para chegar onde está e, silenciosamente, transforma essa história em uma obrigação: depois de tudo isso, precisa dar certo.
Essa sensação nem sempre aparece de maneira explícita e talvez a pessoa jamais formule para si mesma que não se permite fracassar, mas pode perceber seus efeitos na forma como trabalha, no nível de exigência que mantém, na dificuldade para reconhecer limites, na necessidade de demonstrar competência e na maneira como reage aos próprios erros. Uma falha profissional que antes seria desagradável passa a parecer muito maior, uma avaliação negativa adquire um peso desproporcional, pedir ajuda pode soar como demonstração de incapacidade e descansar começa a produzir culpa porque, enquanto tantas coisas ainda precisam ser construídas, parar parece incompatível com o projeto que levou aquela pessoa até ali.
Por fora, esse funcionamento pode ser interpretado apenas como ambição, comprometimento e alta performance, porque estamos falando de pessoas que muitas vezes trabalham muito, aprendem rapidamente, assumem responsabilidades, investem na carreira e conseguem alcançar resultados importantes. Por dentro, entretanto, pode existir uma pergunta sendo respondida todos os dias por meio do desempenho: “Será que eu realmente consigo fazer essa vida dar certo?”
É nesse ponto que alta performance, perfeccionismo e medo de fracassar podem começar a se misturar de uma maneira difícil de perceber, especialmente quando o trabalho deixa de representar apenas uma dimensão da vida e passa a carregar o peso simbólico de todo o projeto migratório.
Quando o trabalho passa a representar muito mais do que trabalho
Para compreender essa pressão, é importante lembrar que uma mudança internacional não altera apenas o endereço, porque muitas vezes ela reorganiza simultaneamente trabalho, renda, idioma, rede social, rotina, identidade profissional, relações familiares e sensação de pertencimento. Mesmo quando a migração foi desejada e planejada, existe uma quantidade considerável de adaptação acontecendo ao mesmo tempo, e essa adaptação não precisa ser interpretada como adoecimento para ser reconhecida como exigente.
Uma pessoa que já possuía reconhecimento profissional no Brasil pode precisar construir reputação novamente, compreender códigos de comunicação diferentes, adaptar-se à cultura organizacional, aprender como determinadas relações profissionais funcionam e demonstrar competência em um ambiente no qual nem sempre possui a mesma familiaridade social e linguística que tinha anteriormente. Dependendo da profissão e do país, ainda podem existir processos de validação de diploma, certificações, burocracias, limitações de visto ou diferenças importantes entre a posição profissional ocupada antes e depois da mudança.
Por isso, quando alguém diz que está tentando “dar certo no exterior”, essa expressão pode conter muito mais do que sucesso profissional, porque dar certo pode significar conseguir permanecer, alcançar estabilidade financeira, justificar uma decisão difícil, reconstruir a carreira, proporcionar melhores condições para a família, não depender de outras pessoas, sentir que os sacrifícios valeram a pena e talvez provar para si mesmo — e algumas vezes para quem ficou no Brasil — que a escolha fez sentido.
Quando tantos significados são depositados sobre o desempenho, errar deixa de parecer apenas parte natural de qualquer trajetória profissional e pode começar a ser interpretado como ameaça a algo muito maior.
“Depois de tudo o que fiz para chegar até aqui, eu não posso fracassar”
Existe uma diferença importante entre querer que uma escolha dê certo e sentir que ela precisa dar certo a qualquer custo.
No primeiro caso, existe investimento, dedicação e desejo de construir uma boa vida, mas também alguma margem para rever planos, mudar de direção, reconhecer dificuldades e aceitar que determinadas expectativas talvez precisem ser reformuladas. No segundo, a possibilidade de que alguma coisa não aconteça como planejado pode ser experimentada quase como uma ameaça à própria narrativa construída sobre a mudança.
A pessoa pode começar a pensar que não pode decepcionar quem acreditou nela, que não pode admitir para a família que está difícil, que voltar ao Brasil seria interpretado como fracasso ou que, depois de tanto investimento financeiro e emocional, mudar de plano significaria desperdiçar tudo o que já foi feito.
Nem todo brasileiro que mora fora vive essa experiência e voltar ao país de origem não significa fracassar, assim como permanecer não significa necessariamente ter sido bem-sucedido. Ainda assim, quando a própria pessoa passa a organizar sua experiência dessa maneira, surge uma pressão interna poderosa para continuar fazendo aquela vida funcionar independentemente do custo.
Nesse contexto, a frase “não posso fracassar” raramente permanece apenas como pensamento, porque ela pode se transformar em comportamento: trabalhar mais, aceitar mais responsabilidades, evitar demonstrar dificuldades, revisar excessivamente o próprio trabalho, tentar antecipar todos os problemas, comparar-se constantemente e sentir que qualquer resultado abaixo do esperado precisa ser compensado com mais esforço.
Quando perfeccionismo deixa de ser apenas “gostar das coisas bem-feitas”
Perfeccionismo é frequentemente confundido com excelência, organização ou cuidado, mas são fenômenos diferentes. Buscar qualidade pode ser saudável e compatível com flexibilidade, enquanto padrões perfeccionistas podem envolver expectativas excessivamente elevadas, autocrítica intensa e uma tendência a atribuir grande significado aos erros.
Isso significa que a pessoa não pensa apenas “eu gostaria de fazer isso muito bem”, mas começa a funcionar a partir de uma lógica mais rígida, na qual errar pode significar não ser competente o suficiente, receber uma crítica pode ameaçar a percepção de valor pessoal e não atingir determinado resultado pode ser interpretado como evidência de que algo está errado consigo.
No contexto migratório, esse funcionamento pode encontrar condições particulares para se intensificar porque a pessoa está reconstruindo referências em um ambiente no qual ainda não domina completamente todas as regras. Ela pode compreender o idioma e ainda assim precisar de mais atenção para acompanhar determinadas conversas, dominar tecnicamente o trabalho e ainda não conhecer os códigos informais da organização, possuir experiência profissional significativa e ainda sentir que precisa demonstrá-la novamente para pessoas que não conhecem sua trajetória.
O problema não é querer fazer um excelente trabalho, mas precisar ser excelente o tempo todo para sentir que está seguro.
Quando a competência deixa de ser algo que você possui e passa a ser algo que precisa provar continuamente, o desempenho pode começar a funcionar como uma tentativa de reduzir insegurança.
Alta performance movida por desejo e alta performance movida por medo podem parecer iguais por fora
Essa talvez seja uma das distinções mais importantes deste tema porque duas pessoas podem trabalhar muito, buscar crescimento profissional e alcançar resultados semelhantes enquanto vivem experiências internas completamente diferentes.
Uma delas pode estar profundamente envolvida com aquilo que faz, interessada em crescer, estimulada pelos desafios e capaz de alternar períodos de maior esforço com recuperação, descanso e outras áreas da vida. Outra pode produzir tanto quanto, mas funcionar sob uma sensação permanente de que diminuir o ritmo é perigoso, cometer erros é arriscado e recusar uma oportunidade pode significar perder espaço.
Por fora, ambas parecem ambiciosas.
Por dentro, uma está se aproximando de alguma coisa que deseja enquanto a outra pode estar permanentemente tentando evitar alguma coisa que teme.
Essa diferença importa porque desempenho sustentado por medo tende a tornar a chegada cada vez mais difícil. A pessoa consegue a promoção, mas imediatamente pensa na próxima avaliação; conquista estabilidade, mas começa a imaginar como pode perdê-la; recebe reconhecimento, mas interpreta aquilo como algo que precisará continuar merecendo; termina um grande projeto, mas não consegue usufruir da conquista porque já está preocupada com o próximo.
A sensação de segurança nunca chega porque o desempenho não está sendo utilizado apenas para construir uma carreira, mas também para manter afastada a possibilidade de fracasso.
O imigrante competente pode sentir que precisa ser ainda mais competente
Para alguns profissionais, existe outra camada importante: a sensação de que precisam demonstrar mais para serem percebidos da mesma maneira.
Isso pode acontecer por diferentes razões e não deve ser generalizado para toda experiência migratória, mas pesquisas sobre trabalho e migração mostram que alguns trabalhadores migrantes enfrentam condições como sobrequalificação, menor reconhecimento de credenciais, dificuldades de inserção compatível com a formação, discriminação e outras desvantagens ocupacionais.
Imagine alguém que levou anos para construir uma carreira no Brasil e, depois da mudança, percebe que parte de sua experiência não é reconhecida da mesma forma, que precisa explicar repetidamente sua formação ou que ocupa temporariamente uma posição abaixo daquela que possuía anteriormente. Mesmo quando essa etapa fazia parte do planejamento, viver concretamente essa diferença pode afetar a maneira como a pessoa percebe a própria trajetória profissional.
Algumas respondem reduzindo expectativas, outras mudam de carreira e outras transformam a necessidade de reconstrução em uma intensa busca por desempenho, como se precisassem recuperar rapidamente aquilo que sentem ter perdido durante a mudança.
É nesse momento que trabalhar muito pode deixar de ser apenas uma estratégia profissional e começar a carregar uma tentativa de recuperar identidade, reconhecimento e sensação de valor.
Errar em outro idioma pode parecer muito maior do que simplesmente errar
O idioma acrescenta uma camada que muitas vezes é subestimada, especialmente porque alguém pode ser fluente e ainda assim experimentar maior esforço em situações de alta complexidade, conflito, humor, negociação ou exposição profissional.
Você pode saber exatamente o que quer dizer e levar alguns segundos a mais para encontrar a palavra; pode interpretar uma frase de maneira diferente da intenção do interlocutor; pode não compreender uma referência cultural; pode ter domínio técnico superior ao de outras pessoas da equipe e ainda sentir que sua capacidade parece menor quando precisa expressá-la em uma língua que não é a sua.
Quando existe perfeccionismo, essas pequenas situações podem ser interpretadas de maneira muito mais severa do que seriam interpretadas por quem observa de fora. Uma palavra esquecida vira “não sei me comunicar”, uma apresentação difícil vira “não sou bom o suficiente”, uma correção vira “estão percebendo que não pertenço a este lugar”.
O problema deixa de ser o erro em si e passa a ser aquilo que a pessoa conclui sobre si mesma a partir dele.
Por isso, aprender a diferenciar dificuldade linguística, adaptação cultural e competência profissional pode ser particularmente importante para quem trabalha em outro idioma, porque essas dimensões podem se misturar internamente e produzir uma avaliação muito mais negativa da própria capacidade do que a realidade justificaria.
Quando voltar ao Brasil começa a ocupar o lugar simbólico do fracasso
Para algumas pessoas, existe uma pressão adicional que raramente é dita em voz alta: a ideia de que voltar significaria admitir que “não deu certo”.
Essa associação pode ser reforçada pelo modo como a história da mudança foi contada, pelas expectativas familiares, pelo investimento realizado, pelas comparações sociais e pela própria imagem que a pessoa construiu em torno da vida no exterior. Redes sociais podem intensificar esse contraste quando mostram conquistas, viagens, promoções e experiências positivas, mas quase nunca revelam solidão, dúvidas profissionais, dificuldades financeiras, conflitos conjugais ou a ambivalência que pode existir mesmo em uma vida objetivamente boa.
Quando retornar se torna psicologicamente equivalente a fracassar, permanecer pode deixar de ser uma escolha livre e começar a parecer uma obrigação.
A pessoa talvez continue em um trabalho que não deseja, em uma rotina que se tornou insustentável ou em uma cidade na qual já não se sente bem não porque tenha concluído que permanecer é sua melhor escolha, mas porque imaginar outra possibilidade desperta vergonha.
É importante separar essas coisas: permanecer pode ser uma escolha legítima, retornar também pode ser, mudar novamente de país pode ser, alterar a carreira pode ser. Uma trajetória migratória não precisa obedecer ao roteiro original para ter valor.
A pressão de justificar tudo aquilo que ficou para trás
Existe ainda uma dimensão emocional que vai além do trabalho.
Morar fora frequentemente envolve perdas que não são necessariamente negativas, mas continuam sendo perdas: presença cotidiana da família, aniversários, encontros espontâneos, familiaridade cultural, amizades, lugares conhecidos, facilidade com o idioma e uma rede de apoio construída durante anos.
Quando alguém abriu mão de muito para realizar um projeto, pode surgir uma necessidade implícita de que os resultados sejam suficientemente grandes para justificar aquilo que ficou para trás.
É como se a conta emocional precisasse fechar.
Se estou longe da minha família, minha carreira precisa valer a pena.
Se perdi momentos importantes, preciso conquistar alguma coisa importante.
Se investi dinheiro e anos nesse projeto, não posso desistir agora.
Esse tipo de raciocínio é compreensível, mas pode transformar cada perda em uma dívida que precisa ser paga com desempenho, fazendo com que a pessoa permaneça em movimento não porque ainda deseja aquilo, mas porque parar significaria ter que entrar em contato com tudo aquilo que custou chegar até ali.
Quando o sucesso nunca produz a sensação de ter chegado
Uma das consequências mais paradoxais desse funcionamento é que a pessoa pode efetivamente dar certo e ainda assim não sentir que deu.
Ela consegue emprego, aprende o idioma, organiza documentos, conquista estabilidade financeira, melhora profissionalmente, constrói relacionamentos, recebe reconhecimento e talvez alcance uma qualidade de vida que desejava quando decidiu sair do Brasil, mas continua vivendo internamente como se estivesse em período de teste.
Sempre existe algo que falta para finalmente poder relaxar.
Quando conseguir o visto.
Quando tiver residência.
Quando for promovido.
Quando comprar a casa.
Quando ganhar determinado salário.
Quando falar o idioma perfeitamente.
Quando sentir que os colegas realmente reconhecem sua competência.
Quando tiver certeza de que não precisará voltar.
A linha de chegada se desloca cada vez que a pessoa se aproxima dela, porque talvez o problema já não esteja na ausência objetiva de conquistas, mas na expectativa de que uma próxima conquista finalmente produza uma segurança que nenhuma conquista anterior conseguiu produzir.
Quando descansar começa a parecer incompatível com a vida que você está tentando construir
É nesse ponto que descanso pode começar a produzir desconforto, porque parar significa temporariamente interromper justamente aquilo que a pessoa acredita estar garantindo sua permanência, seu crescimento e sua segurança.
Ela termina o trabalho e continua pensando no trabalho, utiliza parte do fim de semana para adiantar tarefas, sente culpa quando não está sendo produtiva e transforma férias em uma pausa acompanhada de preocupação com tudo aquilo que encontrará quando voltar.
Isso não significa que brasileiros no exterior necessariamente trabalhem dessa maneira, nem que a migração produza perfeccionismo. A relação é muito mais complexa e depende de história pessoal, condições de trabalho, contexto migratório, segurança econômica, apoio social, personalidade e inúmeros outros fatores.
Mas, quando já existe uma tendência a associar valor pessoal a desempenho, um contexto no qual muito parece depender do sucesso profissional pode oferecer combustível adicional para esse funcionamento.
E então descansar não parece simplesmente descansar.
Parece diminuir a vantagem.
Perder tempo.
Correr risco.
Dar espaço para alguém ocupar seu lugar.
Ou deixar de fazer aquilo que supostamente garantiria que toda essa história desse certo.
A pressão para dar certo também pode aumentar a vulnerabilidade à exaustão
Burnout possui um significado específico e não deve ser utilizado como sinônimo de qualquer cansaço relacionado à vida no exterior. A Organização Mundial da Saúde o define como um fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso, envolvendo exaustão, maior distanciamento mental ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho e redução da eficácia profissional.
Portanto, morar fora não causa burnout por si só, perfeccionismo não é burnout e medo de fracassar também não.
Entretanto, quando uma pessoa acredita que não pode diminuir o ritmo, não pode errar, não pode demonstrar dificuldade e precisa continuar entregando independentemente do próprio estado, pode permanecer exposta a demandas profissionais por mais tempo do que seria sustentável.
Nesse sentido, compreender o contexto é mais útil do que procurar uma única causa, porque a exaustão pode surgir da interação entre exigências do trabalho, baixa recuperação, insegurança, pressão financeira, ausência de rede de apoio, dificuldades de adaptação e padrões pessoais de exigência.
Nem toda essa pressão está dentro da pessoa
Também seria inadequado transformar todo esse fenômeno em um problema psicológico individual, como se bastasse ao imigrante ser menos perfeccionista ou aprender a lidar melhor com o medo de fracassar.
Condições concretas importam.
Segurança de renda importa.
Reconhecimento profissional importa.
Condições do visto podem importar.
Discriminação importa.
Ter uma rede de apoio importa.
Trabalhar em uma função compatível com a formação importa.
Ter autonomia e condições adequadas de trabalho importa.
A Organização Mundial da Saúde enfatiza justamente que a saúde mental de migrantes é influenciada por fatores individuais, familiares, comunitários e estruturais, incluindo condições de trabalho, segurança, apoio social, políticas de integração, discriminação e acesso a serviços.
Por isso, nem toda preocupação é irracional e nem toda insegurança precisa ser reinterpretada como distorção cognitiva. Às vezes existe um risco concreto que precisa ser administrado.
O trabalho psicológico não consiste em convencer alguém de que nada pode dar errado, mas em compreender quando a necessidade legítima de construir segurança começou a se transformar em uma exigência permanente de perfeição.
Talvez “dar certo” precise ser redefinido
Existe uma pergunta importante para quem construiu uma vida fora do Brasil: o que exatamente significa dar certo?
É ganhar mais?
Conseguir residência?
Ter uma carreira reconhecida?
Comprar uma casa?
Nunca precisar voltar?
Falar o idioma sem sotaque?
Ser admirado pelas pessoas que ficaram?
Conseguir sustentar tudo sozinho?
Talvez parte da pressão permaneça justamente porque a resposta nunca foi claramente formulada e, quando “dar certo” não possui uma definição suficientemente concreta, qualquer conquista pode parecer insuficiente.
Você pode estar construindo uma vida estável e continuar se sentindo atrasado.
Pode ter alcançado aquilo que desejava e continuar comparando sua trajetória.
Pode estar profissionalmente bem e ainda sentir que precisa provar alguma coisa.
Pode gostar profundamente da vida que construiu e, ao mesmo tempo, reconhecer que ela está exigindo mais de você do que gostaria.
Essas experiências não são contraditórias.
Morar fora pode ser uma excelente decisão e ainda assim ser difícil em determinados momentos.
Ter sucesso profissional não elimina inseguranças.
Ser grato pela oportunidade não obriga ninguém a suportar qualquer condição.
E reconhecer que está cansado não significa que a mudança tenha sido um erro.
Construir uma vida no exterior exige adaptação, não perfeição
Talvez uma das mudanças mais importantes aconteça quando a pessoa deixa de perguntar continuamente se está fazendo o suficiente para merecer a vida que construiu e começa a observar se a maneira como está vivendo permite que essa vida seja realmente vivida.
Porque existe uma diferença entre construir algo e passar anos tentando provar que merece aquilo que construiu.
Uma carreira pode continuar crescendo sem que cada erro seja tratado como ameaça. Uma vida no exterior pode continuar fazendo sentido mesmo quando existem dúvidas. Um plano pode ser revisto sem que toda a história anterior perca valor. E descansar não precisa significar desistir daquilo que levou tanto tempo para conquistar.
Se você percebe que nunca consegue chegar ao ponto em que sente que finalmente pode diminuir a vigilância, talvez a questão não esteja apenas em quanto ainda falta conquistar.
Talvez esteja na ideia de que alguma conquista futura finalmente lhe dará permissão para parar de provar que deu certo.
E essa permissão talvez não esteja na próxima promoção, no próximo salário, no próximo documento ou na próxima conquista.
Talvez comece quando você consegue reconhecer que construir uma vida no exterior exige esforço, mas não deveria exigir que você viva permanentemente com medo de fracassar.
Perguntas frequentes
É normal sentir pressão para dar certo depois de mudar de país?
Pode acontecer, especialmente quando a mudança envolveu investimento financeiro, afastamento da família, reconstrução profissional e grandes expectativas sobre o futuro. Entretanto, a experiência migratória é muito diversa e nem todas as pessoas vivem essa pressão da mesma maneira. O mais importante é observar se a expectativa de construir uma boa vida está se transformando em uma exigência rígida que compromete descanso, bem-estar ou capacidade de reconhecer limites.
Morar fora pode aumentar o perfeccionismo?
Não é adequado afirmar que a migração cause perfeccionismo, porque padrões perfeccionistas dependem de múltiplos fatores. Entretanto, determinados contextos podem aumentar a sensação de que é necessário demonstrar competência, evitar erros ou alcançar resultados rapidamente, especialmente quando existe insegurança profissional, reconstrução de carreira ou forte investimento emocional no projeto migratório.
Por que sinto que preciso trabalhar mais do que os outros para provar meu valor?
Essa sensação pode ter diferentes origens, desde padrões pessoais de autoexigência até experiências concretas de menor reconhecimento, dificuldades linguísticas, reconstrução de reputação profissional ou discriminação. Por isso, é importante não presumir que toda essa pressão esteja apenas “na cabeça” da pessoa e compreender tanto os fatores internos quanto as condições reais do ambiente em que ela trabalha.
Ter medo de voltar ao Brasil significa que minha experiência no exterior não deu certo?
Não. Voltar, permanecer ou mudar novamente são decisões de vida e não indicadores objetivos de sucesso ou fracasso. Entretanto, quando retornar passa a ser vivido internamente como uma prova de incapacidade, essa associação pode aumentar a pressão para permanecer em situações que já não fazem sentido apenas para evitar a sensação de ter fracassado.
Como saber se minha alta performance está sendo movida por ambição ou por medo?
Uma pergunta útil é observar o que acontece quando você pensa em diminuir o ritmo. Se descansar, recusar uma demanda ou cometer um erro produz imediatamente medo intenso de perder espaço, ser considerado incompetente ou colocar toda a trajetória em risco, talvez exista algo além do desejo saudável de crescer profissionalmente. Ambição e medo também podem coexistir, por isso não é necessário encaixar sua experiência em apenas uma categoria.
Trabalhar demais no exterior pode levar ao burnout?
O burnout está relacionado ao estresse crônico no contexto de trabalho e não à migração em si. Entretanto, quando condições profissionais exigentes se combinam com pouca recuperação, dificuldade de estabelecer limites, insegurança e pressão constante por desempenho, pode existir maior desgaste. A avaliação precisa considerar tanto as condições de trabalho quanto os fatores pessoais e contextuais.
Por que sinto culpa quando descanso mesmo tendo conquistado estabilidade?
Para algumas pessoas, produtividade se torna fortemente associada a segurança, reconhecimento e valor pessoal, especialmente depois de períodos longos de esforço para construir uma nova vida. Nesse contexto, parar pode produzir a sensação de estar deixando de fazer aquilo que garantiu as conquistas até então. Compreender essa associação pode ser mais útil do que simplesmente tentar se obrigar a relaxar.
Por que minhas conquistas nunca parecem suficientes?
Quando cada conquista é utilizada principalmente para reduzir insegurança, o alívio pode durar pouco, porque uma nova meta rapidamente ocupa o lugar da anterior. Também podem existir comparação social, padrões perfeccionistas e expectativas pouco definidas sobre o que significaria finalmente “dar certo”. Identificar quais critérios você está utilizando para avaliar a própria trajetória pode ajudar a compreender esse funcionamento.
É possível gostar de morar fora e ainda estar emocionalmente exausto?
Sim. Experiências positivas e dificuldades podem coexistir. Reconhecer solidão, cansaço, pressão profissional ou saudade não significa rejeitar o país onde você vive nem concluir que a decisão de migrar foi equivocada. Essa ambivalência faz parte de muitas experiências humanas complexas.
Quando procurar ajuda profissional?
Quando a pressão por desempenho, o medo de fracassar, a dificuldade de descansar, a ansiedade, a autocrítica ou a exaustão começam a se tornar persistentes e interferem na qualidade de vida, nos relacionamentos, no sono ou na relação com o trabalho, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender tanto os fatores pessoais quanto as condições atuais que estão sustentando esse funcionamento.
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Referências
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Luciene Marinho
Psicóloga | Neuropsicóloga | Terapeuta EMDR
CRP 06/118394
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