Dores crônicas e fibromialgia: quando o corpo também conta uma história

Luciene Marinho

7/1/20264 min read

Durante muito tempo, corpo e mente foram compreendidos como partes separadas.

Uma dor física era vista apenas como algo do corpo, enquanto emoções e experiências de vida pertenciam ao campo psicológico.

Hoje, a neurociência, a psicotraumatologia e os estudos sobre estresse mostram uma realidade mais integrada: nossas experiências influenciam não apenas pensamentos e emoções, mas também a forma como o organismo interpreta segurança, ameaça e responde ao ambiente.

Isso não significa que toda dor tem origem emocional ou que uma pessoa sente dor porque “não resolveu algo psicológico”.

A dor é uma experiência real, complexa e multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, neurológicos, psicológicos e sociais.

Mas compreender a história de vida de uma pessoa pode ser uma parte importante desse cuidado.

Fibromialgia e dores crônicas: quando o sistema de proteção permanece ativado

A fibromialgia é uma condição caracterizada por dor persistente, aumento da sensibilidade corporal, fadiga, alterações do sono e outros sintomas que podem impactar significativamente a qualidade de vida.

Pesquisas apontam que, em muitos quadros de dor crônica, pode existir uma alteração na maneira como o sistema nervoso processa os sinais de dor.

É como se o sistema responsável por identificar ameaças e proteger o organismo estivesse funcionando com uma sensibilidade aumentada.

O corpo passa a reagir de maneira mais intensa a estímulos que, em outras circunstâncias, poderiam ser interpretados como seguros.

Para algumas pessoas, essa sensibilização pode estar relacionada a fatores genéticos, condições médicas, inflamação, alterações neuroquímicas, histórico de estresse prolongado e experiências difíceis vividas ao longo da vida.

O que a Psicotraumatologia observa além dos sintomas

A Psicotraumatologia busca compreender como experiências emocionalmente impactantes podem influenciar o cérebro, o corpo e os padrões de resposta ao estresse.

Quando uma pessoa vive situações que ultrapassam seus recursos emocionais naquele momento, o organismo pode desenvolver formas de adaptação para continuar seguindo.

Muitas vezes, essas adaptações são necessárias.

Ser forte, controlar tudo, permanecer em alerta, cuidar de todos ou ignorar as próprias necessidades pode ter sido uma maneira de atravessar fases difíceis.

Mas quando o corpo permanece por muito tempo em um estado de sobrevivência, esse funcionamento pode ter consequências.

O organismo humano não foi construído para permanecer em alerta constante.

Experiências adversas e o corpo em estado de defesa

Experiências adversas na infância ou ao longo da vida podem influenciar a maneira como o sistema nervoso aprende a reconhecer segurança e ameaça.

Isso pode envolver situações como perdas significativas, ambientes imprevisíveis, falta de apoio emocional, excesso de responsabilidades, relações marcadas por medo ou longos períodos de estresse.

Nem sempre essas experiências aparecem como uma lembrança dolorosa.

Às vezes, aparecem como um corpo que tem dificuldade para descansar, músculos sempre tensos, sono prejudicado, sensação constante de cansaço ou dificuldade para desacelerar.

O corpo pode continuar respondendo a uma história que a mente acredita já ter deixado para trás.

Dor crônica não é imaginação: a dor acontece no cérebro e no corpo

Um dos maiores sofrimentos relatados por pessoas com dores persistentes é a sensação de não serem compreendidas.

Quando exames não explicam completamente a intensidade dos sintomas, muitas pessoas escutam que “é psicológico”, como se isso significasse que a dor não existe.

Essa separação não corresponde ao que sabemos atualmente.

Toda dor envolve processamento do sistema nervoso.

O cérebro interpreta informações vindas do corpo, das emoções, do ambiente e da história individual.

Experiências emocionais não tornam uma dor menos real. Elas fazem parte de um sistema complexo que influencia como percebemos e respondemos ao mundo.

A relação entre emoções, estresse e percepção da dor

Quando vivemos períodos prolongados de estresse, diferentes sistemas do organismo são mobilizados.

Hormônios relacionados ao estresse, respostas inflamatórias, sono, tensão muscular e funcionamento do sistema nervoso podem ser afetados.

Com o tempo, algumas pessoas podem apresentar dificuldade em retornar para estados de equilíbrio e recuperação.

É por isso que apenas tentar “relaxar” muitas vezes não funciona.

Um sistema nervoso que passou anos em alerta pode precisar reaprender, gradualmente, experiências de segurança.

Como a Terapia Somática pode ajudar

As abordagens somáticas trabalham considerando que experiências emocionais também são registradas através das sensações corporais.

O objetivo não é apenas falar sobre o que aconteceu, mas desenvolver maior percepção dos sinais internos, ampliar recursos de regulação emocional e ajudar o organismo a construir novas respostas.

O trabalho somático pode auxiliar a pessoa a reconhecer padrões de tensão, estados de alerta, desconexão corporal e formas automáticas de proteção que foram desenvolvidas ao longo da vida.

É um processo de reconexão gradual com o próprio corpo.

Como a Terapia EMDR pode contribuir no cuidado das dores crônicas

A Terapia EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), ou Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares, é uma abordagem baseada em evidências utilizada no tratamento de experiências traumáticas e memórias emocionalmente difíceis.

Dentro de um plano terapêutico adequado, o EMDR pode auxiliar no processamento de experiências adversas, eventos estressores e crenças negativas associadas ao sofrimento emocional.

Em pessoas com dores crônicas, o trabalho pode envolver não apenas a dor em si, mas também experiências relacionadas ao adoecimento, sensação de incapacidade, medo, perdas e impactos emocionais provocados pela própria condição.

O corpo não é um inimigo: ele pode estar tentando proteger você

Muitas pessoas passam anos lutando contra seus próprios sintomas.

Mas um caminho importante começa quando aprendemos a escutar o corpo de outra maneira.

Algumas respostas que hoje causam sofrimento podem ter surgido como tentativas de proteção diante de experiências difíceis.

Compreender essa história permite construir novas possibilidades.

O objetivo não é apenas perguntar “qual sintoma precisa desaparecer?”, mas também compreender:

“O que meu corpo precisou carregar por muito tempo?”

A integração entre Psicotraumatologia, Terapia EMDR, abordagens somáticas e Neurociência oferece um olhar mais amplo para a relação entre experiências de vida, emoções e corpo.

Luciene Marinho

Psicóloga | Neuropsicóloga | Terapeuta EMDR

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