10 dificuldades enfrentadas pelos brasileiros que moram fora do Brasil

Luciene Marinho

8/31/202611 min read

Quais são os principais desafios emocionais enfrentados por brasileiros que moram no exterior?

Ao longo da minha experiência clínica atendendo brasileiros que vivem em diferentes países, percebo que muitas das dificuldades de morar fora não aparecem nas fotografias, nas conquistas profissionais ou na vida que se mostra para quem ficou no Brasil. Elas aparecem nas entrelinhas: no cansaço de precisar se adaptar continuamente, na falta que faz uma rede de apoio próxima, na dificuldade de pertencer, nas relações que mudam com a distância e, algumas vezes, na sensação de que não existe espaço para admitir que morar fora também pode ser difícil.

Construir uma vida em outro país pode representar crescimento, liberdade, segurança, desenvolvimento profissional e a realização de um projeto desejado durante anos. Mas reconhecer essas conquistas não exige negar o custo emocional que uma mudança dessa dimensão pode trazer.

É possível gostar profundamente da vida que você construiu no exterior e, ao mesmo tempo, sentir saudade. É possível não querer voltar ao Brasil e ainda se sentir deslocado. É possível falar muito bem outro idioma e sentir falta de ser compreendido em português. É possível ter sucesso profissional e perceber que emocionalmente está exausto.

Essas experiências não são contraditórias. Elas fazem parte da complexidade da experiência migratória.

1. A sensação de precisar começar novamente

Mudar de país não significa apenas mudar de endereço. Em muitos casos, significa reconstruir referências que levaram anos para serem formadas.

No Brasil, você sabia a quem recorrer quando precisava resolver um problema, como funcionavam determinadas instituições, como conversar com um médico, como procurar um imóvel, quais comportamentos eram esperados em determinadas situações e até como interpretar pequenas nuances sociais sem precisar pensar sobre elas.

No exterior, parte dessa competência precisa ser reconstruída.

Até atividades aparentemente simples podem exigir pesquisa, atenção e planejamento. Abrir uma conta, compreender um contrato, resolver documentação, utilizar o sistema de saúde ou lidar com uma instituição pública pode consumir uma energia que dificilmente seria percebida por alguém que já nasceu naquele contexto.

Não significa incapacidade.

Significa que aquilo que antes era automático voltou a exigir processamento consciente.

E quando isso acontece em dezenas de pequenas situações cotidianas, o custo se acumula.

2. A ausência de uma rede de apoio próxima

Talvez uma das diferenças mais importantes entre visitar outro país e realmente morar nele seja descobrir quem está disponível quando alguma coisa acontece.

Uma rede de apoio não é formada apenas por pessoas com quem conversamos.

É também aquela amiga que poderia chegar em meia hora; o familiar que buscaria uma criança na escola; alguém que indicaria um médico; a pessoa que poderia ajudar durante uma doença ou simplesmente oferecer companhia em um momento difícil.

É possível conversar diariamente com familiares e amigos no Brasil e ainda perceber a falta dessa presença concreta.

Com o tempo, muitos brasileiros constroem novas redes no exterior. Algumas tornam-se extremamente sólidas. Mas esse processo exige tempo, disponibilidade e reciprocidade.

Até que esses vínculos existam, a sensação de precisar resolver praticamente tudo sozinho pode ser uma importante fonte de sobrecarga.

3. Viver em outro idioma

Aprender uma língua e viver emocionalmente dentro dela são coisas diferentes.

Você pode trabalhar em inglês todos os dias, participar de reuniões, fazer apresentações e resolver problemas complexos e, ainda assim, perceber que determinadas experiências são muito mais fáceis de expressar em português.

A língua materna não contém apenas vocabulário. Ela carrega humor, afetos, referências familiares, memórias, expressões e maneiras de organizar determinadas experiências.

Existe também o esforço cognitivo necessário para acompanhar sotaques, ironias, velocidade de fala, códigos sociais e palavras desconhecidas. Quanto maior a fluência, mais automática tende a se tornar essa experiência, mas isso não significa que desapareça completamente para todas as pessoas.

Por isso, sentir-se cansado depois de passar o dia inteiro funcionando em outro idioma não significa necessariamente que você não esteja adaptado.

4. Não se sentir completamente pertencente

Pertencimento é uma dimensão particularmente complexa da imigração.

No início, você pode sentir-se claramente brasileiro vivendo em outro país. Com o passar dos anos, porém, alguma coisa começa a mudar.

Novos hábitos são incorporados. Algumas opiniões se transformam. Certas características da cultura local passam a fazer parte da sua maneira de viver.

Então você volta ao Brasil e percebe que também não é exatamente a mesma pessoa que saiu.

Ao mesmo tempo, no país onde vive, existem momentos em que alguma diferença reaparece. O sotaque, o nome, uma referência cultural que você não conhece ou simplesmente a pergunta “de onde você é?” lembram que existe outra história por trás daquela vida.

Para algumas pessoas, viver entre culturas se transforma em uma identidade ampliada e enriquecedora. Para outras, existe um período em que surge uma pergunta desconfortável:

“Onde é, de fato, o meu lugar?”

5. A culpa por estar longe

A distância ganha outro significado quando alguma coisa acontece no Brasil.

Os pais envelhecem. Alguém adoece. Um familiar precisa de ajuda. Um sobrinho nasce. Há aniversários, casamentos, separações e perdas.

A vida continua acontecendo sem que você esteja fisicamente presente.

E algumas pessoas começam a experimentar culpa.

“Eu deveria estar lá.”

“Será que estou perdendo tempo demais com meus pais?”

“E se acontecer alguma coisa e eu não conseguir chegar?”

Essa preocupação pode tornar-se particularmente intensa quando os pais começam a envelhecer. A distância, que antes era medida em quilômetros ou horas de voo, passa a ser percebida emocionalmente.

Muitas pessoas começam a viver entre dois mundos: construindo a própria vida no exterior e tentando continuar disponíveis para uma vida familiar que permanece no Brasil.

6. A pressão para a mudança “dar certo”

Essa é uma dificuldade pouco falada.

Depois de investir dinheiro, energia, tempo e expectativa em uma mudança internacional, admitir que as coisas não estão bem pode ser difícil.

Principalmente quando as pessoas no Brasil enxergam sua vida no exterior como uma conquista.

Você escuta:

“Quem me dera morar aí.”

“Você está reclamando de quê?”

“Sua vida está ótima.”

E talvez realmente existam muitas coisas boas.

O problema é que gratidão e sofrimento não são experiências mutuamente excludentes.

Você pode ser grato pelas oportunidades que possui e ainda estar cansado.

Pode reconhecer seus privilégios e ainda sentir solidão.

Pode ter escolhido sair do Brasil e descobrir que algumas partes dessa escolha são muito mais difíceis do que imaginava.

Reconhecer o custo de uma escolha não significa necessariamente arrepender-se dela.

7. A reconstrução da identidade profissional

Nem todo brasileiro que muda de país consegue continuar exercendo imediatamente a mesma profissão.

Diplomas podem precisar de validação. Certificações podem não ser reconhecidas. O domínio do idioma exigido para uma profissão pode ser diferente daquele necessário para a vida cotidiana.

Alguém que possuía reconhecimento, experiência e autonomia no Brasil pode se perceber ocupando uma posição muito diferente no exterior.

Isso não afeta apenas a renda.

Pode afetar identidade, autoestima e percepção de competência.

Há também profissionais que conseguem crescer significativamente depois da imigração, mas passam a enfrentar outro tipo de pressão: a sensação de precisar provar constantemente que merecem estar naquele espaço.

Em ambos os casos, trabalho e identidade migratória podem se misturar de maneiras importantes.

8. A solidão que pode existir mesmo cercado de pessoas

Solidão não significa necessariamente ausência de companhia.

É possível ter colegas, conhecidos e até amigos e ainda sentir falta de vínculos nos quais você não precise explicar tanto quem é.

Relacionamentos profundos são construídos com tempo.

Amigos antigos conhecem versões anteriores de nós. Lembram de pessoas, histórias, lugares e acontecimentos sem que seja necessário contextualizar tudo.

Ao mudar de país, grande parte das novas relações começa do zero.

Algumas se tornarão profundas.

Outras permanecerão circunstanciais.

E existe ainda uma característica comum da vida expatriada: pessoas também vão embora. Amigos retornam ao país de origem, mudam de cidade ou seguem para outro destino.

Às vezes, o imigrante precisa aprender não apenas a construir vínculos, mas também a reconstruí-los repetidamente.

9. A exaustão de precisar se adaptar continuamente

Esse é um ponto especialmente importante porque pode ser confundido com burnout.

Morar fora exige adaptação em diferentes níveis: idioma, trabalho, relações, hábitos, burocracia, cultura, alimentação, clima, formas de comunicação e expectativas sociais.

Grande parte dessas adaptações se torna natural com o tempo.

Mas, em determinadas fases, a quantidade de recursos exigida pode ultrapassar a capacidade de recuperação.

A pessoa começa a perceber irritabilidade, cansaço persistente, dificuldade de concentração, redução da disponibilidade social e uma sensação de que tarefas simples estão exigindo esforço demais.

Isso não significa automaticamente burnout.

Pela definição da Organização Mundial da Saúde, burnout está especificamente relacionado ao contexto ocupacional. A exaustão de quem vive fora pode envolver trabalho, mas também pode estar associada ao processo de adaptação cultural, à solidão, à falta de suporte e a outras demandas da experiência migratória.

Compreender onde o cansaço está sendo produzido é mais importante do que encontrar rapidamente um rótulo.

10. A dificuldade de saber se ainda quer permanecer

Talvez essa seja uma das perguntas mais delicadas.

Depois de anos construindo uma vida fora, algumas pessoas começam a se perguntar:

“Quero realmente continuar aqui?”

E imediatamente surge outra:

“Se eu voltar, significa que fracassei?”

Nem permanecer significa necessariamente sucesso, nem retornar significa fracasso.

Projetos migratórios mudam porque pessoas mudam.

O país que fazia sentido aos 25 anos pode não responder às necessidades dos 40. A chegada dos filhos pode modificar prioridades. O envelhecimento dos pais pode mudar a relação com a distância. Uma mudança profissional pode abrir outras possibilidades.

Em outros casos, a dúvida é passageira e aparece justamente em momentos de maior sobrecarga.

Por isso, decisões dessa magnitude merecem ser diferenciadas do estado emocional do momento.

Talvez a pergunta não seja apenas “fico ou volto?”, mas “que vida quero construir agora e quais elementos são importantes para essa decisão?”

Morar fora também envolve perdas que nem sempre são reconhecidas como perdas

A imigração costuma ser contada como uma história de movimento em direção a alguma coisa: novas oportunidades, segurança, carreira, estudo, relacionamento ou qualidade de vida.

Mas toda mudança também envolve aquilo que ficou para trás.

Lugares conhecidos, rituais familiares, proximidade física, referências culturais, facilidade linguística e versões anteriores da própria identidade podem deixar de fazer parte da rotina.

Isso não significa que a pessoa queira recuperar tudo aquilo ou voltar.

Podemos sentir falta de algo sem desejar retornar a ele.

É justamente essa ambivalência que torna a experiência migratória psicologicamente complexa.

Você pode amar o país onde vive e sentir saudade do Brasil.

Pode criticar aspectos do Brasil e sentir profundamente a falta deles.

Pode construir uma nova casa sem deixar de sentir que existe outra parte da sua história em outro lugar.

Uma coisa não invalida a outra.

Quando é importante olhar com mais atenção para a saúde emocional?

Nem toda dificuldade de adaptação significa que exista um transtorno psicológico.

Existem períodos de maior cansaço, saudade, estranhamento e dúvida que fazem parte de grandes mudanças.

Mas quando a exaustão se torna persistente, o sono começa a ser afetado, há isolamento crescente, irritabilidade intensa, ansiedade frequente, perda de prazer, dificuldade de concentração ou comprometimento significativo do trabalho e dos relacionamentos, pode ser importante compreender o que está acontecendo.

E essa compreensão precisa considerar tanto a pessoa quanto o contexto.

Nem tudo é “choque cultural”.

Nem tudo é burnout.

Nem toda dificuldade começou depois da imigração.

Alguns padrões já existiam e se tornaram mais evidentes diante das novas exigências. Outros surgiram justamente porque o ambiente mudou.

Uma compreensão cuidadosa precisa diferenciar essas dimensões.

A psicoterapia para brasileiros que vivem no exterior

Fazer psicoterapia enquanto mora fora pode oferecer um espaço para compreender não apenas sintomas, mas também a experiência de construir uma vida entre culturas.

Para algumas pessoas, realizar esse processo em português facilita o acesso a nuances emocionais, memórias e referências que não são tão simples de traduzir.

Mas o idioma não é o único aspecto relevante.

É importante compreender a experiência migratória sem patologizá-la e, ao mesmo tempo, não minimizar sofrimento real chamando tudo de “fase de adaptação”.

Questões relacionadas a pertencimento, identidade, relacionamentos interculturais, distância familiar, sobrecarga profissional, solidão, experiências anteriores e expectativas sobre a própria imigração podem se encontrar dentro da mesma história.

E talvez seja justamente por isso que uma pergunta aparentemente simples — “por que estou tão cansado depois que vim morar fora?” — possa ter respostas muito diferentes para cada pessoa.

Você pode gostar da vida que construiu e reconhecer que ela está exigindo demais

Talvez uma das permissões mais importantes para quem mora fora seja abandonar a ideia de que precisa escolher entre duas narrativas.

Ou a imigração foi maravilhosa.

Ou foi um erro.

A experiência humana raramente é tão simples.

Você pode ter conquistado muito e perdido algumas coisas.

Pode estar feliz e sentir saudade.

Pode ter crescido profissionalmente e sentir-se emocionalmente cansado.

Pode desejar permanecer e precisar reorganizar a maneira como está vivendo.

Pode não querer voltar ao Brasil e ainda precisar falar sobre aquilo que deixou para trás.

Reconhecer essas contradições não diminui a conquista de ter construído uma vida em outro país.

Talvez apenas permita enxergá-la por inteiro.

Porque morar fora não é apenas aprender a viver em outro lugar.

É também descobrir quem você se torna quando grande parte daquilo que antes parecia familiar precisa ser reconstruído.

Perguntas frequentes

Quais são as principais dificuldades dos brasileiros que moram no exterior?

As experiências variam significativamente, mas dificuldades relacionadas à adaptação cultural, idioma, ausência da rede de apoio, solidão, pertencimento, distância da família, trabalho e reconstrução da identidade podem aparecer em diferentes momentos da experiência migratória.

É normal sentir vontade de voltar ao Brasil mesmo depois de anos morando fora?

Sim. Questionar a permanência não significa necessariamente que a imigração tenha fracassado. Prioridades, relacionamentos e necessidades mudam ao longo da vida. Também é importante observar se essa vontade aparece apenas durante períodos de grande sobrecarga ou representa uma mudança mais consistente no projeto de vida.

É possível gostar de morar fora e ainda sentir sofrimento emocional?

Sim. Satisfação com a decisão de emigrar e sofrimento não são incompatíveis. Uma pessoa pode reconhecer os benefícios da vida no exterior e, simultaneamente, enfrentar solidão, saudade, exaustão ou dificuldades de adaptação.

O que é estresse de aculturação?

O termo descreve o estresse que pode surgir em processos de adaptação a outro contexto cultural. Pode envolver desafios linguísticos, sociais, profissionais, identitários e relacionais, entre outros fatores. Não significa automaticamente a existência de um transtorno psicológico.

A exaustão de quem mora fora é burnout?

Não necessariamente. Burnout está especificamente relacionado ao contexto ocupacional. Uma pessoa pode estar exausta devido à soma de diferentes demandas da experiência migratória sem apresentar burnout. Também é possível que ambos coexistam.

Fazer terapia em português pode fazer diferença?

Para algumas pessoas, sim. A língua materna pode facilitar a expressão de nuances emocionais, experiências familiares e referências culturais. Além do idioma, é importante que o processo terapêutico considere as particularidades da experiência intercultural.

Agende seu atendimento

Se você mora no exterior e percebe que a adaptação, a distância, a sobrecarga ou a sensação de precisar dar conta de tudo têm afetado sua qualidade de vida, compreender o que está acontecendo pode ser um passo importante. Meu trabalho integra Neurociência, Terapia EMDR, abordagens somáticas e Hipnose, considerando sua história, suas experiências, seus padrões de funcionamento e também as particularidades de construir uma vida entre diferentes culturas. Ofereço atendimento presencial em São Paulo e psicoterapia online para brasileiros no Brasil e no exterior.

Luciene Marinho

Psicóloga | Neuropsicóloga | Terapeuta EMDR

CRP 06/118394

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Referências bibliográficas

Berry, J. W. (1997). Immigration, acculturation, and adaptation. Applied Psychology: An International Review, 46(1), 5–34;

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Liem, A.; Renzaho, A. M. N.; Hannam, K.; Lam, A. I. F.; Hall, B. J. (2021). Acculturative stress and coping among migrant workers: A global mixed-methods systematic review. Applied Psychology: Health and Well-Being, 13(3), 491–517;

Schwartz, S. J.; Unger, J. B.; Zamboanga, B. L.; Szapocznik, J. (2010). Rethinking the concept of acculturation: Implications for theory and research. American Psychologist, 65(4), 237–251;

World Health Organization. (2022). World report on the health of refugees and migrants. Geneva: World Health Organization.

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